Natalia Mendes Teixeira
Resumen: Este artículo se propone introducir una pregunta ontológica en torno a la relación entre el sí mismo (Selv) y la conciencia (Bevidsthed) en la obra de Søren Kierkegaard. Ambas categorías están dialécticamente constituidas en oposición a la desesperación, una condición psicopatológica descripta en La enfermedad mortal (1849). De acuerdo con nuestra perspectiva, la obra ofrece aspectos epistémicos preliminaries y físicos acerca de la ontología de la conciencia y el sí mismo. Nuestra pregunta principal es: ¿el sí mismo y la conciencia poseen el mismo estatuto ontológico en tanto están conjuntamente constituidos y son similares en términos de sus categorías?
Palabras Clave: Si mismo, Conciencia, Kierkegaard, Ontología
Abstract: This article aims to introduce an ontological question about the relation between Self (Selv) and Consciousness (Bevidsthed) in Søren Kierkegaard’s work. Both categories are dialectically constituted in opposition to Despair, a psychopathological condition described in The Sickness unto Death (1849). In our perspective, the work offers a preliminary epistemic and psychics aspect about Consciousness and Self ontologies. Our main question is: Do Self and Consciousness have the same ontological status since they are jointly constituted and are generally similar in terms of their categories?
KEYWORDS: Self. Consciousness. Kierkegaard. Ontology.
Na obra The Sickness Unto Death – SUD, Kierkegaard nos oferece uma descrição da Consciência (Bevidsthed) e do Self (Selv) enquanto fenômenos psicológico e epistêmico. Para tal, sob a pena de AntiClimacus, ele inclui uma narrativa que vincula negativamente o Self e a Consciência ao Desespero; narrando o desespero (Fortvivelse) – e, também a angústia (Angest), através de Haufniensis – a partir de um aprofundamento conceitual e fenomenológico de patologias psicológicas específicas que acabam por exprimir traços estruturais do ser humano. Fortvivelse, especificamente, é descrito como uma doença com sintomas particulares que comprometem ontologicamente aspectos estruturantes do Self do sujeito qua existente e que o impede de ter Consciência de si mesmo em níveis distintos. Assim, a constituição do Self parece estar vinculada de forma irrevogável à própria Consciência; assim como, apenas pela plenificação dialética da Consciência, o Self é constituído. Por isso, a pergunta que nos fica é: essas categorias compartilham do mesmo estatuto ontológico? Em busca de uma resposta à questão nossa discussão centra-se: I) Em uma reconsideração metodológica ante às diversas formas de leituras de SUD que acabam obscurecendo a questão que aqui investigamos; II) Uma análise introdutória do Self na obra de AntiClimacus; III) Uma resposta preliminar à questão da vinculação ontológica entre as categorias fundamentais da obra, o Self e a Consciência.
Antes de ensaiarmos uma resposta à questão colocada; é necessário localizar o método de leitura que utilizamos para acessar esse problema. Como se trata de uma das obras mais difundidas e estudadas de Kierkegaard2 e, também devido ao seu caráter polissêmico, legou-se a ela interpretações diversas. De modo geral, ela recebeu três leituras na tradição interpretativa: (I) Psicológica; (II) Teológica; e (III) Histórica3; proporemos uma quarta leitura que aqui chamo de (IV) Reconstrutivista4. Estas leituras são, evidentemente, expressões de concorrências interpretativas mais internas ao projeto de Kierkegaard:
Leituras Psicológicas de SUD
A obra é um tratado de Psicologia descritiva da experiência e apresenta uma psicopatologia e uma sintomatologia do desespero.
A primeira parte descreve o quadro clínico de uma doença; e a segunda a possibilidade terapêutica de cura.
A primeira parte da obra parece poder ser lida puramente como um tratado de psicologia clínica descritiva e a segunda como uma fenomenologia da “cura” através de conceitos da Dogmática como pecado e fé5.
Leituras Teológicas de SUD
A obra é um tratado teológico que elenca traços psicológicos, mas tem objetivo edificante, conforme o subtítulo: “A Christian Psychological Exposition for Upbuilding and Awakening”.
A obra apresenta o Self como constituído por traços escatológicos e soteriológicos6.
A obra é um tratado de fenomenologia da religião, incluindo teses de teologia da criação que se filiam a uma antropologia filosófica marcada por traços cristocêntricos;
O fundamento constitutivo do Self é que ele é criado por Deus e toda sua autorrealização depende dele; sendo o próprio Cristo o protótipo a ser emulado e reproduzido na sua constituição7.
Anticlimacus é projetado por Kierkegaard para ser “um cristão em um nível extraordinariamente alto”8, mais alto que ele próprio, portanto, a obra é um tratado teológico.
Leituras Históricas em SUD
A obra é escrita utilizando traços estilístico e filosóficos do idealismo e do romantismo alemão, embora Kierkegaard se opusesse a essas tradições, seu estilo, conceitos e problemas são moldados por elas9.
A obra também está em diálogo com as noções de saúde e doença em Aristóteles e “eu” e “consciência” em Descartes e Fichte embora, na mesma medida em que se alinha, se oponha a esses filósofos.
Estas teses, apesar de verdadeiras, costumam ser defendidas de forma isolada das demais – o que é compreensível quando se trata de literatura especializada. No entanto, elas acabam, muitas vezes, por restringir o caráter plurívoco do texto. O caráter intencionalmente edificante da obra, por exemplo, não reduz o caráter extremamente filosófico dos escritos edificantes de Kierkegaard – como dissera Heidegger. A leitura que vou propor consegue condensar essas teses e aqui a chamo de Reconstrutivista por ser inspirada no resultado da recente querela entre filósofos que defendem uma leitura dita instrumentalista da história da filosofia e filósofos que defendem uma leitura historicista das ideias filosóficas. Um dos extratos dessa querela é a proposta de uma terceira via: a defesa de que é possível aliar a possibilidade de uma reconstrução racional de uma obra filosófica e preocupações hermenêuticas e históricas que a constituem10.
Quanto a diversidade de leituras feitas em SUD, recorrendo ao próprio Kierkegaard, vemos ele assumir num parágrafo introdutório sua própria posição: a obra carrega uma tensão entre edificação (leitura teológica) e exposição científica (leitura filosófica) apresentando, em seguida, uma chave de leitura guiada pela sua própria intenção como autor11:
(i)Talvez a muitos a forma desta “exposição” possa parecer estranha; parecerá rigorosa demais para poder ser edificante, e edificante demais para poder ser rigorosamente científica [streng videnskabelig]. No que toca a esse último parecer, não tenho opinião a respeito. Quanto ao primeiro, ao contrário, a minha opinião já não é essa; e se tal fosse o caso, de ser rigorosa demais para ser edificante, pelo meu conceito isso seria então uma falha. Uma coisa, é claro, é se essa exposição não consegue ser edificante para todos, pois nem todos têm as condições para segui-la; outra coisa é que ela tenha o caráter do edificante. Do ponto de vista cristão tudo, tudo deve servir para a edificação. (ii) O tipo de cientificidade [Den Art Videnskabelighed] que, em última instância, não edifica, é, por isso mesmo, não-cristã(…)(iii) Essa relação do propriamente cristão com a vida (em contraste com um distanciamento científico da vida), ou esse aspecto ético do propriamente cristão, é justamente o edificante, e esse tipo de exposição, por mais rigoroso que de resto seja, é completamente distinto, qualitativamente distinto, do tipo de cientificidade que é “indiferente”, cujo grandioso heroísmo, visto na perspectiva cristã, está tão longe de ser heroísmo que, do ponto de vista cristão, é uma espécie de curiosidade inumana”.
Videnskabelig, nesse contexto, parece referir-se tanto I) à filosofia especulativa que se pretendia científica e fundadora das ciências; II) quanto à noção de Ciência como Naturvidenskaben que estava em ascensão. Neste último sentido, importa lembrar que Kierkegaard diferenciava um tipo de Ciência que incorporava a totalidade da verdade e, portanto, era edificante; e uma outra que considerava apenas descobertas isoladas, os detalhes, que recaía numa posição inclusive anti-científica de endeusamento da Ciência12 – SUD é escrita em 1849, quando Kierkegaard já havia maturado sua crítica à Videnskaben nos diários de 1846. AntiClimacus está antecipando que o escrito que segue pode parecer ser rigorosamente científico – Streng Videnskabelig pode ser traduzido também por “estritamente científico” – para que porte um caráter edificante; ou que, para outros, ele possa parecer muito edificante para ser considerado rigorosamente científico, não dando, afinal, um parecer sobre a segunda possibilidade, mas refutando que o caráter científico anule o caráter edificante. Isso quer dizer que embora Kierkegaard tenha dificuldade de defender a importância de teses cristãs para a “ciência filosófica”; ele não vê empecilho algum em reconhecer que um escrito rigorosamente científico cumpra critérios de edificação porque a Ciência e o Cristianismo se interessam e podem compartilhar o mesmo objeto: os fenômenos da vida. A citação continua distinguido o distanciamento científico, isto é, a cientificidade que é indiferente – indiferente é Ligegyldig, sinônimo de Indifferent e Uinteresseret, que significa desinteressado, o termo que ele utiliza no Pós-Escrito para se referir ao conhecimento objetivo – e aquela levada por uma simples ‘curiosidade inumana’ sobre a vida. Para Anticlimacus não parece haver um fosso entre Ciência e Edificação; ao contrário, a busca do rigor acadêmico e científico deve estar sempre à serviço da edificação.
Kierkegaard trata do problema da Consciência em pelo menos duas obras: a póstuma e inacabada De omnibus dubitandum est e The Sickness Unto Death - SUD (1849). Enquanto pode-se dizer que na primeira o termo Bevidsthed parece assumir um sentido contextual que centraliza o aspecto epistêmico e tricotômico da Consciência diante da dicotomia entre a Idealidade, o domínio dos conceitos, e a Atualidade, o mundo material; em SUD fala-se da Consciência, em oposição a uma abordagem conceitual estática, a partir do desvelamento dialético de uma estrutura psíquica latente em todo Indivíduo. Nesta obra que nos interessa, a partir dos diferentes quadros de desespero, a formação da Consciência é descrita dos níveis negativos até um movimento de positivação no qual Consciência, Autoconsciência, Self (e Vontade) coincidem. Isto é, a análise da Consciência inclui o reconhecimento de outras categorias, inclusive o próprio Self. À medida que o sujeito vai superando os níveis mais baixos de desespero, ele vai integrando ontologicamente o Self e a Consciência. Esta relação não é, contudo, inata ou estática, ela se dá no processo de eliminação dos níveis de desespero. Contudo, essa constituição simétrica de duas categorias aparentemente distintas, mas dependentes leva-nos à pergunta: Self e Consciência tem o mesmo estatuto ontológico? Nós daremos uma resposta, ainda que inicial, a esta questão na parte final deste trabalho. Antes, contudo, é necessário qualificar a discussão sobre o próprio Self.
O que torna a narrativa sobre o Self em The Sickness Unto Death – SUD filosoficamente interessante, embora contra intuitiva, é que ela orbita muito mais na definição do Self como um movimento de autoconstituição ontológica13 – ontologia no sentido propriamente heterodoxo de um movimento constante entre o ser e o vir a ser – do que como uma substância dada, inata e fixa no sentido do eu-substancialista ou substantivista cartesiano, como diz AntiClimacus: “a cada momento que um self existe, ele está em um processo de tornar-se, pois o self não existe realmente, é simplesmente aquilo que deveria vir a existir14”. Essa não-existência em termos de substância não estática e acidental expõe o zênite do caráter ontológico do Self: ele é constituído essencialmente como uma atividade, um processo, uma unidade não-fixa, mutável, que é, ao mesmo tempo, auto constituída e derivada que não chega ao seu último momento e se encerra – e esse é também, por consequência, o estatuto ontológico da Consciência que organiza o Self (ou que é organizada por ele?). Apenas continua sendo o Self que é enquanto for atividade. Embora o Self, dessa forma, não seja inato, ele é, contudo, inatamente latente em todo ser humano: “todo ser humano é primitivamente concebido como um self, destinado a se tornar si mesmo15”. O caráter patológico da nossa existência está no não-desenvolvimento dessa pré-disposição conata.
A antropologia filosófica kierkegaardiana traça uma ontologia de um ente limitado e composto de oposições e disjunções. Ao invés de definições substancialistas, portanto, o Self é nomeado simplesmente como um conjunto de “relações” e, aparentemente, não como uma unidade com propriedades estáticas e específicas. Isso levou intérpretes a considerarem essa definição um equívoco filosófico por conta de um suposto esvaziamento ontológico do próprio Self, de acordo com essa crítica o Self não poderia ser uma relação, mas sim um particular que tem propriedades e categorias independentes em si próprio e que, então, entra em relações16. Este uso conceitual por parte de AntiClimacus, contudo, não é aqui ex nihilo, não nasce solitariamente da pena de Kierkegaard. Muitos intérpretes já mostraram a influência declarada dos idealistas desde Hegel17, Fichte18 e Schelling19 e mesmo do próprio romantismo de Schleiermacher20.
Embora Kierkegaard tenha, ele próprio, dedicado programaticamente parte de sua obra a criticar o método a priori, dedutivo, sistemático-fundacionista dos idealistas, isso não o libertou da possibilidade, se não filosófica, acadêmica e cultural de usar muito do próprio estilo, dos conceitos e evidentemente de se importar com os próprios problemas que constituíram essa tradição. Na construção dessa narrativa do Self – que por vezes lembra um Bildungsroman psicológico numa espécie de versão paródica dinamarquesa. AntiClimacus nos convida, por exemplo, à “história” da consciência num estilo crítico, mas devedor do de Hegel, mas enquanto para Hegel, na Fenomenologia do Espírito, a história da consciência converge com a história da formação do Espírito Absoluto; para Kierkegaard, a história da constituição da Consciência converge com a da formação do Self.
O caso de Hegel é ainda muito mais expressivo porque deixou nos intérpretes hegelianos a impressão de uma paródia irônica da Fenomenologia do Espírito21 na qual Kierkegaard usaria, por exemplo, termos hegelianos como negatividade e dialética apenas para supostamente negar o próprio Hegel. Acredito que qualquer afirmação nesse sentido é muitas vezes mais psicológica do que estritamente gramatical. O que nos interessa nesta sessão é apenas o reconhecimento desse diálogo ora pouquíssimo trabalhado ora superestimado pelos intérpretes especializados; i.e., reconhecer a interferência mais que ponderar suas especificidades – já que esperamos abordá-las seminalmente no anexo desta tese. Defendemos, portanto, que o Self está dialogando e respondendo a uma tradição filosófica específica e não surgiu magicamente de autoincurssões de Kierkegaard.
Na obra de AntiClimacus, de um lado o Self é a relação que se relaciona consigo mesma – i.e., uma autorrelação autoidêntica. De outro, o desespero parece ter uma conotação ambígua, aparece ou (A) como uma “desrelação”, melhor, uma família de desrelações e desacordos dentro do Self e, portanto, o constitui irrevogavelmente, pois o desespero é um conjunto de disfunções ontológicas e psicológicas dentro do Self; ou ainda é (B) uma imediata negação desse Self porque não há Self onde há desespero; mas ao mesmo tempo, só há desespero onde há a possibilidade de haver Self – por isso animais, crianças e seres não-sencientes não desesperam. No entanto, parece que Kierkegaard está afirmando ambos A e B: ele é uma desrelação interna ao Self e uma negação imediata dele. O problema talvez seja, então, que ou queremos resolver a questão escolhendo entre duas proposições apenas formalmente opostas; ou por estarmos esperando conhecimento judicativo à moda kantiana onde Kierkegaard nos oferece dialética.
A função dialética do Self também fica evidente na análise tipológica do desespero: cada nível incorpora as qualidades relacionais do Self. O desespero pode se personificar em três formas, como vimos, e cada uma apresenta elementos constitutivos do Self seja pela ausência dessas propriedades, seja pelo excesso delas. Cada personificação apresenta diferentes aspectos do próprio Self.
O Self é, assim: (A) um agregado sintético de elementos opostos e aparentemente auto excludentes; e uma (B) Autorrelação com esses elementos que devem constituí-lo. O desespero provém, em contrapartida, ou (A’) do não-relacionamento simultâneo desses aspectos sintéticos internos ao Self - deriva de uma má relação com cada um dos seus aspectos constitutivos, isto é, uma (des) relação enviesada e direcionada a apenas um dos muitos elementos constitutivos da individualidade que, consequentemente, opera a exclusão da relação com o seu oposto; ou da (B’) não-autorrelação com o resultado da síntese. O desespero é, portanto, uma ilusão e um desvio do caráter sintético ou autorrelacional do Self. O desespero surge do próprio aspecto relacional que constitui o Self reforçando um certo caráter aristotélico de atividade como saúde e passividade como doença. No caso de A’, a taxonomia do desespero é construída a partir de ausências: o desespero de finitude é a falta de infinitude, o desespero da possibilidade é a falta de necessidade, etc. Em outros termos, é como se o homem fosse autenticamente constituído apenas ao integrar um conglomerado de simultaneidades aparentemente antônimas e irrelacionáveis. Contudo, a constituição ontológica e psicológica do Self não depende de um simples aglomerado sintético randômico de elementos opostos, não se trata de um mero sincretismo, uma simbiose de contrários. A mera relação entre duas propriedades gera apenas uma unidade negativa, e o Self é um terceiro positivo: o resultado concreto e inacabado infinitamente autorrelacionado de uma síntese.
A inevitável identificação entre Selv e Bevidsthed, muitas vezes usada como sinônimos, coloca-nos diante de alguns problemas que a tradição interpretativa parece ter desconsiderado22: se ambos resultam do processo de eliminação do desespero, nível a nível, então eles possuem o mesmo status ontológico? Se não, qual é o status ontológico do Self? O Self é um objeto para a Consciência ou um conteúdo na Consciência? Ou é a própria Consciência? O Self é um estado imediato de consciência e, portanto, passageiro; ou é a matriz unificadora de todos os vários estados momentâneos e duradouros que arrojam o fluxo da Consciência - ou, seria o contrário? Ou, ainda, o Self é apenas uma abstração postulada pela Consciência? Ele tem o mesmo tipo de ser que uma coisa física ou que a própria Consciência? É como uma “propriedade” de coisas, como tamanho ou cor, ou pertence à classe de “eventos” e “ocorrências” da própria Consciência ou vice-versa? ou pertencem a alguma outra classe? Que tipo de entidade é essa? Ou é uma experiência, uma sensação momentânea? Se não, qual é a relação entre, Consciência, experiência consciente e Self? Há um nível de arrojamento ontológico no qual a Consciência de algo (epistêmica) é também Consciência de si (psíquica), Autoconsciência? Ou elas são formadas independentemente?
Pressupomos que há algumas teses que resolveriam essas questões: (a) O self estrutura uma identidade contínua e duradoura ante às mudanças de um estado de Consciência para outro; ou (a’) O fluxo da consciência é uma cadeia de estados de consciência distintos sem relação com nenhuma entidade duradoura, que seja a matriz desses estados; (b) há uma relação de superveniência entre a Consciência e o Self, eles dividem o mesmo status ontológico, as mesmas propriedades, eventos e ocorrências, mas não são iguais, sendo a Consciência superveniente ao Self; (b’) O Self é superveniente à Consciência; (c) Há uma relação de identidade ontológica, e não de superveniência entre ambos; então eles podem ser iguais, mas não o mesmo; (d) também podemos colocar essa relação em termos de condições necessárias e condições suficientes: tenho todas as condições necessárias para que X seja Y, mas não tenho condições suficientes; é necessário estar preparado para vencer uma maratona, mas não é suficiente; assim, o Self é a condição necessária para ter Consciência desenvolvida, mas não suficiente; (d’) a Consciência é condição necessária para ter um Self, mas não é suficiente.
Em uma das passagens mais significativas de SUD temos a seguinte resposta:
A consciência - isto é, a autoconsciência - é decisiva em relação ao self. Quanto mais consciência, mais self; quanto mais consciência, mais vontade; quanto mais vontade, mais self. Uma pessoa que não tem vontade em absoluto não é um self; Mas, quanto mais self, mais consciência de si mesmo ele tem23.
A primeira sentença iguala Consciência e Autoconsciência, a segunda mostra uma dependência do Self em relação à Consciência; e a última uma dependência da Consciência em relação ao Self mostrando uma proporcionalidade qualitativa entre o Self e a Consciência de si mesmo - Autoconsciência. O uso aqui é o de Bevidsthed e incorpora uma equação que conecta Autoconsciência, Self e Vontade modulada a partir do desespero como traço psicológico a ser suplantado. Os termos “é decisiva”; “quanto mais...mais”; “sem... não há” e “não tem...não é” expressam a relação de dependência ontológica entre a Consciência, aqui identificada como Autoconsciência, Self e agora aparece também a Vontade. Note-se, no entanto, que, antes de tudo, é “a Consciência que é decisiva” (Er Bevidstheden det Afgørende) - Afgørende também pode corresponder a “crucial” ou “essencial”. Isto é, 1º) Se não há Consciência não há Self; 2º) Quanto mais Self, mais consciência de si mesmo. Nessa citação fica evidente que a tríade equacionada por Kierkegaard é claramente postulada com entidades diferentes, mas ontologicamente interligadas. Ele as apresenta como distintas, mas como operando sob a mesma égide, sendo interdependentes e constituindo-se mutuamente. Não há Self sem Consciência, não há operação da Vontade cujo fundamento não esteja no Self e na Consciência em desenvolvimento. Vontade enquanto uma espécie de intenção-para-ação mostra que a Consciência é realizada através de um aspecto volitivo. O que não quer dizer, no entanto, que quem tem Vontade tem Self e Consciência: um tipo de desespero é modulado pelo excesso de vontade de ser Self; o desespero-desafio.
No entanto, em outra passagem, Anticlimacus também evidencia que o aumento da Consciência implica um aumento da condição de desespero: “quanto mais consciência tanto mais intenso é o desespero (...) quando, pois, a inconsciência está em seu máximo, então o desespero é mínimo”24. O que parece contradizer a ideia de “quanto mais consciência, mais Self”25; já que, à primeira vista, o desespero é diretamente oposto ao próprio Self. Este é um exemplo dos inúmeros casos de anomalias categoriais; categorias de fronteira ou figuras de transição26 que Kierkegaard monta para mostrar uma certa inapreensibilidade teórica da própria existência27 ou para aludir à complexidade dos tipos existenciais que ele investiga. Outra razão para essa aparente contradição é que a relação dialética entre desespero e Self mostra que ambos, considerando o grau de consciência, são igualmente uma possibilidade, embora sejam possibilidades categorialmente autoexcludentes28. O ponto elementar é que tanto o Self quanto o desespero propriamente dito só são possíveis pelo desenvolvimento ou regulação da própria Consciência. A relação dialética do desespero com o Self mostra que ambos, considerando o grau de Consciência, são igualmente uma possibilidade, no entanto, possibilidades autoexcludentes.
De um lado, Kierkegaard/Anticlimacus pretende (A) Construir uma taxonomia do desespero; de outro, (B) Analisar o que quer dizer ser um Self. A e B são projetos interdependentes e intimamente relacionados. Ao galgar os níveis de desespero, o Self vai constituindo aspectos que, negativados no estado psicológico de desespero, positivam-se e integram ontológica e estruturalmente o Self. A negação de um é, por consequência lógica, a afirmação positiva do outro. No entanto, à moda hegeliana, a complexa dialética de auto exclusão mútua entre o Self (A) e o desespero (não-A) nos impõe um desafio: não parecemos poder formular esta relação por meio do princípio de não-contradição porque segundo ele A não pode ser A e não-A ao mesmo tempo; e Kierkegaard parece, por vezes, querer dizer que “A não é B” e que “A é B” ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto, isto é, o “Self é o não-desespero”, “o contrário do Self é desespero” e “Ter um Self é viver a possibilidade do desespero” e, ao mesmo tempo, “o contrário do desespero é a fé”, “desespero é pecado”, o “contrário do pecado é a fé”. Esta discussão nos interessa aqui na medida em que o resultado desse intercurso é também o da formação ontológica e psicológica da Consciência. No seguinte trecho há uma resolução para essa aparente aporia:
Não estar desesperado tem de significar a possibilidade anulada de ser capaz de desesperar; se deve ser verdadeiro que uma pessoa não está desesperada ela deve a cada instante anular essa possibilidade (...) O desespero não é apenas dialeticamente diferente de uma doença, mas, em relação ao desespero, todas as suas características são dialéticas, e por isso a consideração superficial se engana tão facilmente no determinar se o desespero está ou não presente29.
Cada grau de desespero manifesta falhas distintas no Self e ocorrem quando ele deixa de ser o que é. As falhas no Self estão, assim, fundamentalmente ligadas ao que ele próprio é, e reparadas pelo que ele deve se tornar – por isso o Self nunca existe propriamente. As disfunções e falhas se expressam numa variedade de fenômenos psicológicos estruturados em uma espécie de taxonomia na primeira parte da obra. Aos poucos, o mal-estar psicológico subjacente dá lugar ao relacionamento interno dos elementos antes mal relacionados o que paulatinamente faz emergir o Self ao tangenciar corretamente as propriedades relacionais que o constituem. O ponto elementar é que tanto o Self quanto o desespero só são possíveis àquele que tem Consciência – tanto consciência de estado, quanto consciência per se, sendo a consciência de estado (isto é, da condição de desespero) condição necessária, embora não suficiente para o arrojamento da Consciência per se.
Há desesperos não conscientes e desesperos conscientes de não ser Self – isso quer dizer que há desesperos com uma espécie de consciência de primeira ordem, mas que, não há Self formado; e aqui teríamos que diferenciar o primeiro fator: ter consciência de alguma entidade é diferente de Consciência como uma entidade própria. Adquirir consciência do próprio estado de desespero, também não é ter alcançado Consciência – nesse nível é a presença do Self que vai garantir a estabilização da Consciência enquanto entidade arrojada e como resultado das sínteses dialéticas do próprio Self. Até aqui, o Self parece, ao mesmo tempo, dependente e superveniente à Consciência porque ele depende da consciência de estado para constituir o Self e apenas a partir deste pode-se constituir a consciência de criatura, isto é, a Consciência como entidade arrojada. Assim, independente da tese explicativa escolhida, fica evidente, em primeiro lugar, que os aspectos constitutivos do Self e da Consciência são imediatamente opostos ao estado e ao status ontológico do desespero; e, em segundo, que o fator decisório para o Self é a própria consciência, contudo a consciência que inicialmente é decisiva é uma espécie de consciência de estado; e não a Consciência per se.
Em outros termos, AntiClimacus distingue o desespero inconsciente das formas conscientes de desespero nos quais: “a intensidade do desespero aumenta com a consciência (...) quanto mais se desespera tanto melhor se tem a clara consciência de o ser”30. Isto quer dizer que na intensificação do desespero o sujeito atinge uma certa consciência de si sem, no entanto, atingir um estado pleno de estabelecimento do Self; há um nível de consciência sem, no entanto, existir o Self dado que a condição para a plenificação deste é a eliminação da disfunção – e a todo momento a possibilidade anulada dele se estabelecer. O último nível de desespero é o mais alto e o mais próximo do Self porque ele é o que implica maior atividade (e, nesse caso, talvez um excesso dela). Como veremos, a obra narra níveis distintos de disfunção psicológica desde uma inconsciência de se estar desesperado (desespero inconsciente de ser desespero ou de ter um self latente) e, consequentemente do próprio Self, até uma consciência de seu próprio desespero e estabelecimento de uma vontade em superá-lo (em desespero querer ser self) sem, contudo, que essa vontade seja de fundá-lo ou de criá-lo hermeticamente: é uma Vontade de querer ser si mesmo sem, contudo, querer ser por si mesmo – esse é o limiar entre o estado de desespero e o alcance do Self.
Isto nos leva a concluir que (a) da proporcionalidade entre os níveis de Consciência, Vontade e Self não se deduz necessariamente uma igualdade ontológica absoluta entre eles; mas (b) deduz-se igualmente uma desproporcionalidade destes em relação ao desespero; e deste modo (c) o que há em comum entre eles é que são, igualmente e, simultaneamente, resultados da superação da disfunção psicológica e ontológica que o desespero acarreta; e que, se (d) é possível ser inconsciente de meu próprio Self, então há algum conteúdo na minha Consciência, mesmo que eu o desconheça e mesmo que esse conteúdo seja uma mínima representação de mim mesmo; isto é, quando a Consciência está lá, o Self é tanto um conteúdo para ela; quanto a matriz unificadora que organiza o fluxos de consciência e a identidade do sujeito qua existente; (e) A Consciência está vinculada indissociavelmente ao Self e, negativamente, ao desespero; (f) Ter consciência de alguma entidade é diferente da Consciência como uma entidade própria; (g) Há desesperos com uma espécie de consciência de primeira ordem, mas não há Self em um sentido arrojado; (h) Apenas no movimento de auto constituição do Self, a Consciência se desdobra como fenômeno psíquico e chega a ser Autoconsciência; por isso, entendê-la é, antes, entender os próprios movimentos do indivíduo qua existente em direção a si mesmo – ao seu Self; (i) Há uma vinculação ontológica entre o Self, a Consciência e a Vontade, no entanto, são entidades distintas.
O Self é a matriz unificadora que, ao mesmo tempo, estrutura a minha identidade e organiza minha cadeia de estados de consciência. Isto é, a Consciência é organizada pelo fluxo de estados mentais cuja entidade duradoura e contínua que organiza esses estados é o Self - a Autoconsciência é a Consciência de que esses estados são meus e não de outrem. Portanto, se vejo um objeto, sinto dor, tenho um desejo e imagino uma paisagem, o que há em comum entre estes diferentes estados de consciência é que eles são unificados pelo mesmo Self; e Autoconsciência é saber que eles são meus. Isso quer dizer que não é possível, em alguma medida, falar da Consciência sem falar do Self que estrutura e condiciona a minha experiência em relação à minha própria Consciência; que, ao mesmo tempo, me destaca e me coloca no mundo cultural, histórico e psíquico. Uma ontologia do Self pode clarificar a própria constituição psíquica da Consciência e sendo o desespero a entidade que negativamente a constitui, uma clarificação dele é também uma exposição do estatuto ontológico da Consciência enquanto fenômeno psíquico.
Este artigo buscou introduzir a pergunta pela vinculação ontológica entre Self e Consciência (Bevidsthed) que se constituem conjuntamente à medida de um desacoplamento com o Desespero (Fortvivelse). O produto da obra é uma ontologia preliminar dos aspectos psíquicos, mas também epistêmicos da Consciência e do Self do sujeito qua existente. A pergunta pela ontologia culmina numa vinculação essencial entre essas entidades; contudo, se estamos falando de uma relação, estamos falando naturalmente de duas entidades distintas que se autoconstituem em dependência uma da outra.
De um lado, a constituição ontológica e psicológica do Self não depende de um simples aglomerado sintético randômico de elementos opostos, não se trata de um mero sincretismo, uma simbiose de contrários. A mera relação entre duas propriedades gera apenas uma unidade negativa, e o Self é um terceiro positivo: o resultado concreto e inacabado infinitamente autorrelacionado de uma síntese que se fundamenta transparentemente no poder que a constituiu. De outo, a Consciência é, ao mesmo tempo, aquilo que deriva desse correto relacionamento interno do Self, quanto aquilo que em grande medida o propicia – é através do ganho de consciência de estado, isto é, nesse caso da condição de ser desesperado, que a Consciência per se e o Self podem ser alcançados pelo sujeito qua existente. Isto nos faz defender a existência tanto de (a) um Self de primeira ordem; como de (b) uma consciência de primeira ordem, a consciência de estado; bem como, de (c) uma distinção entre consciência de um estado epistêmico qualquer; e Consciência como uma entidade própria, cuja roupagem é essencialmente psíquica. Deste modo, não apenas trata-se de entidades distintas, que se vinculam ontologicamente e se formam de forma interligada; como entidades que apresentam variações internas à sua própria constituição dialética.
Este trabalho é o recorte de um dos problemas tratados na Tese de Doutorado a ser apresentada à Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, cujo título pretendido é: O que um filósofo da existência tem a dizer sobre a Consciência? Kierkegaard e o problema da Bevidsthed. O objetivo central da tese é apresentar as diversas perspectivas filosóficas (ontológica, psicológica e epistêmica) a partir da qual Kierkegaard trata o problema da Consciência no contexto de transição da Naturphilosophie para a Naturwissenschaft no século XIX. Portanto, este trabalho é apenas uma parcela do problema desenvolvido na tese em questão.↩︎
Até o momento da escrita deste artigo não há nenhuma tradução publicada em português reconhecidamente confiável. Deste modo, as citações aqui selecionadas foram traduzidas pela autora. Optou-se, portanto, pela referência internacional que utiliza a Søren Kierkegaards Skrifter, SKS, e a tradução americana de 1980 de Edna e Howard Hong.↩︎
Estamos nos baseando principalmente pelo International Kierkegaard Commentary (1987) e textos do Kierkegaard Studies Yearbook.↩︎
Também existem leituras que poderíamos chamar de críticas ou revisionistas, a partir de intérpretes que pretenderam levantar objeções ou propor formas adaptativas do que Kierkegaard propusera. Cfr. Theunissen, Michael, Kierkegaard’s concept of despair, Princeton, Princeton University Press, 2005, p. 159; Baber. H. E. y Donnelly, J., “Self-Knowledge and The Mirror Of The Word”. International Kierkegaard Commentary, Mercer University Press, 2001, p. 371, ou, ainda, leituras atualistas, que pretendem atualizar os argumentos de Kierkegaard a questões contemporâneas, como por vezes propõe Stokes, P. Kierkegaard’s mirrors: interest, self, and moral vision, Basingstoke/New York, Palgrave Macmillan, 2010, p. 223; Stokes, P., The naked self: Kierkegaard and personal identity, Oxford, Oxford University Press, 2015, p. 256.
No entanto, as leituras revisionistas e atualistas costumam ser igualmente reconstrutivistas (a leitura que proporemos), isto é, antes de apresentarem objeções ou de atualizarem SUD, elas oferecem uma interpretação que reconstrói os argumentos de Kierkegaard e são, em grande medida, mediadas por uma das três linhas interpretativas que aqui distinguimos.↩︎
Aspecto da obra que levou autores como, por exemplo, Walter Kaufmann a defenderem que Kierkegaard costuma ser extremamente perceptivo quando lida com a identificação e descrição de patologias (a inautenticidade, o desespero), mas bastante decepcionante quando descreve a cura (autenticidade, o Self) já que ela está fundamentada em premissas teístas. Kaufmann, W., Discovering the Mind, New York, McGraw-Hill, 1980, vol. 2, p. 28.↩︎
Thonhauser, G., “Thinker without Category. Kierkegaard in Heidegger’s Thinking of the 1930s” en Kierkegaard Reconsidered I: The Existential Approach, Arne Grøn, K. Brian Soderquist y René Rosfort (eds.), Berlin, Walter De Gruyter, 2016, pp. 281-304.↩︎
Cfr. SUD: 79 / SKS: 11.↩︎
JP, 6431 / SKS 22, 128.↩︎
Como disse Merold Westphal “A psicologia de Kierkegaard foi considerada em importantes aspectos aristotélica, cartesiana e hegeliana, embora cada um desses aspectos seja suficientemente qualificado para tornar-se igualmente apropriado falar de uma psicologia antiaristotélica, anticartesiana e anti-hegeliana” (Westphal, M., “Kierkegaard's Psychology and Unconscious Despair” en International Kierkegaard Commentary: The sickness unto death, Perkins R. (ed.), Georgia, Mercer University Press, 1987, p. 54).↩︎
Sobre isso conferir as reações metafilosóficas ao recente artigo de Christia Mercer, The Contextualist Revolution in Early Modern Philosophy, Journal of the History of Philosophy, 3, 57, 2019, pp. 529–548.↩︎
Embora, como diria Gadamer, a tentativa de resgate de intenções de autores nos leva a problemas hermenêuticos e psicológicos ao tentar retirar a obra da interpretação gramatical qualificada. Cfr. Gadamer, H. G., Verdade e método I: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Vozes, Petrópolis, 9 ed., 2008, p. 631.↩︎
Kierkegaard denomina alguns desses cientistas de sofistas e açougueiros: “These mere butcher boys who think they can explain everything with the help of a knife, and then with the help of a microscope, are an abomination to me (…) But what does he do then? He skeletonizes, he dissects, he intrudes as far as he can with a knife, to show us - that he cannot!” NB, 70:1846/ KJN 4, 59-60; e ainda: “If the natural sciences had been as developed in Sócrates’ time as they are now, all the Sophists would have been researchers in the natural sciences”. …NB 81:1846/ KJN 4: 69.↩︎
Falamos em autoconstituição porque toda a atividade de realização do Self depende majoritariamente do movimento do sujeito qua existente em direção a ele próprio. Mesmo que parte do seu extrato ontológico seja de dependência de um poder externo, é o Self que precisa se mover em direção a ele.↩︎
“Yet every moment that a self exists, it is in a process of becoming, for the self [in potentiality] does not actually exist, is simply that which ought to come into existence”. SUD: 30 / SKS 11: 143.↩︎
SUD, p. 33/SKS 11, 146 - mas, a maioria de nós nunca se torna “consciente de ser destinado como espírito” (SUD, p. 26/ SKS 11, 140).↩︎
Cfr. H. Baber y J. Donnelly, op. cit.↩︎
Cfr. Hannay, Alastair, “Spirit and the Idea of the Self as a Reflexive Relation”. International Kierkegaard Commentary: The Sickness Unto Death. Ed. Robert L. Perkins, Macon, GA: Mercer University Press, 1987, pp. 23-38; Stokes, P. Kierkegaard’s mirrors: interest, self, and moral vision, op.cit.; Stewart, J. (ed.), Kierkegaard and his contemporaries: the culture of Golden Age Denmark, Berlin, de Gruyter, 2003, p. 437.↩︎
Stokes, P., The naked self: Kierkegaard and personal identity, op.cit.↩︎
Basso, Ingrid, “Kierkegaard uditore di Schelling: tracce della filsosofia schellinghiana nell’opera di Søren Kierkegaard” en Mimesis, 2007, p. 265.↩︎
Frank, M., “Fragments of a History of the Theory of Self-Consciousness from Kant to Kierkegaard” en Critical Horizons, 1, 5, 2004, pp. 53–136.↩︎
Segundo Hannay: “[...] Has seemed to many an attempt on Kierkegaard’s part […] to parody the impenetrability of Hegelian prose […] this were no more than a dig at Hegelian obscurity”. Hannay, A., Kierkegaard and philosophy: selected essays, New York, Routledge, 2003, p. 63. Segundo Stokes: “[…] it is easy to read this oft-cited passage as an unsubtle parody of the grotesquely dense prose characteristic of the Hegelians”. Stokes, P., Kierkegaard’s mirrors: interest, self, and moral vision, op. cit., p. 63.↩︎
A falta de um background mais rígido no status quaestionis deste trabalho é resultado de uma inexistência de intérpretes que fizeram estas perguntas que aqui coloco sem pretensão de resolvê-las em sua totalidade. Acredito se tratar de questões para uma geração inteira de intérpretes disputarem; longe de poderem ser abertas e satisfatoriamente encerradas em um único texto. Aparentemente, parte considerável da tradição, salvo especialmente os filósofos aqui citados, estava preocupada com a descrição do desespero, do Self e da Consciência sem considerar suas implicações filosóficas mais elementares.↩︎
SUD: 29 / SKS 11: 145.↩︎
SUD: 44 / SKS 11: 157.↩︎
SUD: 29 / SKS 11: 145.↩︎
Sharpless, B. A., Sharpless, B., “Kierkegaard´s conception of psychology” en Journal of Theoretical and Philosophical Psychology, vol. 33, n° 2, 2013, pp. 90–106.↩︎
A resposta de Sharpless é: “So why would Kierkegaard use such a potentially obfuscatory medium to convey his thoughts? It is my opinion that Kierkegaard does so in order to go beyond simply conveying intellectual ideas and instead entering a realm of double imagination in which fictional authors and fictional states of mind are created. This double imagination is exploited to create a sense of indirection and distance with the intention of defining a space in which readers may discover themselves (or choose not to discover themselves). His pseudonymous authors can be taken as abstractions and/or combinations of certain categories, but these extreme, condensed, isolated, and quasi-caricatured imaginary individuals may also serve the purpose of casting fundamental human problems and choices into sharp relief. Thus, they confront the reader with these very same problems and choices” (Sharpless, B., op cit., p. 91)↩︎
“Não estar desesperado tem de significar a possibilidade anulada de ser capaz de desesperar; se deve ser verdadeiro que uma pessoa não está desesperada ela deve a cada instante anular essa possibilidade (...) O desespero não é apenas dialeticamente diferente de uma doença, mas, em relação ao desespero, todas as suas características são dialéticas, e por isso a consideração superficial se engana tão facilmente no determinar se o desespero está ou não presente” (SUD: 26 / SKS 11: 140).↩︎
SUD: 17 / SKS 11: 131.↩︎
SUD: 48 / SKS 11: 161.↩︎