Tecendo histórias, traduzindo experiências: Estudo de uma organização de Economia Solidaria no sudoeste de Minas Gerais
María de los Angeles Arias Guevara
ariasguevaramariadelosangeles@gmail.com
Dra. Em Ciências filosóficas e Mestre Sociologia pela Universidade da Habana, Professora Titular pela Universidade de Holguín, Cuba. Professora visitante na Universidade Federal de Lavras-MG -UFLA, Brasil.
ORCID: http://orcid.org/000lh-0001-6260-8861
Cristiane Reis de Souza
cristianesouza@ufla.br
Mestre em Desenvolvimento Sustentável e Extensão pela Universidade Federal de Lavras, Servidora pública na Universidade Federal de Lavras. Voluntária da União dos Escoteiros, Lavras, Brasil.
Stefania Becattini Vaccaro
stefania.vaccaro@ufla.br
Doutora em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professora do Departamento de Direito da Universidade Federal de Lavras -UFLA, Lavras, Brasil. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0184-0020
Recibido: 25/10/2023 - Aceptado: 29/11/2023
Resumo: A desigualdade de ocupação e de renda entre homens e mulheres é um problema social histórico que pode ser atenuado pela participação feminina em empreendimentos de economia solidária por elas protagonizados. Esses espaços permitem trocas de experiência e o resgate de autoestima, promovem integração de grupos e pessoas com interesses comuns, além de gerar renda. A partir de uma abordagem de gênero e trabalho na economia solidária são realizadas reflexões teóricas sobre a Divisão Sexual do Trabalho com o objetivo de olhar, a partir do “lugar de fala” das mulheres, e refletir, pelas lentes da perspectiva da Economia Feminsta, como elas problematizam as questões do trabalho e de que forma as práticas da Economia Solidária contribuem para essa problematização e na ressignificação de seu trabalho. O artigo reflete sobre o trabalho, em especial analisa o trabalho de cuidado como obstáculo para mulheres participarem ativamente da associação, incluindo os limites velados do patriarcado. A pesquisa foi desenvolvida com base em narrativas sobre cotidiano, experiências de vida e de trabalho. A associação de economia solidária estudada se revelou um potencial espaço de partilha, de ajuda mútua e de desenvolvimento da consciência cidadã.
Palavras-chave: mulheres rurais, Economia Solidária, Economia Feminista
Resumen: La desigualdad laboral y de ingresos entre hombres y mujeres es un problema social histórico que puede aliviarse con la participación femenina en las empresas de economía solidaria que lideran. Estos espacios permiten el intercambio de experiencias y la recuperación de la autoestima, promueven la integración de grupos y personas con intereses comunes, además de generar ingresos. Desde un enfoque de género y trabajo en la economía solidaria, se realizan reflexiones teóricas sobre la División Sexual del Trabajo con el objetivo de mirar, desde el “lugar de habla” de las mujeres, y reflexionar, a través del lente de la Economía Feminista, cómo problematizan las cuestiones del trabajo y cómo las prácticas de la Economía Solidaria contribuyen a esta problematización y al replanteamiento de su trabajo. El artículo reflexiona sobre el trabajo, analizando en particular el trabajo de cuidados como obstáculo para que las mujeres participen activamente en la asociación, incluidos los límites velados del patriarcado. La investigación se desarrolló a partir de narrativas sobre la vida cotidiana, experiencias vitales y laborales. La asociación de economía solidaria estudiada se reveló como un espacio potencial para el intercambio, la ayuda mutua y el desarrollo de la conciencia ciudadana.
Palabras-clave: mujeres rurales, Economía Solidaria, Economía Feminista
Abstract: Occupation and income inequality between men and women is a historical social problem that can be alleviated by female participation in solidarity economy enterprises that they lead. These spaces allow the exchange of experiences and the recovery of self-esteem, promote the integration of groups and people with common interests, in addition to generating income. From an approach to gender and work in the solidarity economy, theoretical reflections are carried out on the Sexual Division of Labor to look, from the “place of speech” of women and reflecting, through the lens of a Feminist Economics perspective, how they problematize work issues and how Solidarity Economy practices contribute to this problematization and the reframing of their work. The article reflects on work, in particular analyzing care work as an obstacle for women to actively participate in the association, including the veiled limits of patriarchy. The research was developed based on narratives about daily life, life, and work experiences. The solidarity economy association studied revealed itself to be a potential space for sharing, mutual help, and the development of citizen awareness.
Keywords: rural women, Solidarity economy, Feminist Economics
O presente artigo é parte de uma pesquisa maior, com foco nas mulheres rurais de um município do sudoeste de Minas Gerais, desenvolvida pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável e Extensão e pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares – Incubacoop. A investigação de campo teve início no ano de 2019, buscando identificar os caminhos que levam as mulheres rurais a construir outra economia dirigida à produção agroecológica por meio das associações solidárias. Buscou-se investigar quais são suas trajetórias, experiências e agências com base no seu “lugar de fala”. Pelas lentes da perspectiva de estudos feministas, buscou-se refletir como as próprias mulheres problematizam as questões do trabalho e de que forma as práticas da Economia Solidária contribuem para essa problematização, bem como para a ressignificação de seu trabalho dentro de contexto do patriarcado que impregna todo seu mundo e orienta as formas de viver.
Nas zonas rurais, historicamente excluídas da propriedade da terra, de ativos e de créditos as mulheres realizam trabalhos na maioria das vezes não reconhecidos, pois não engrossam o que se conhece como riqueza nacional ou Produto Nacional Bruto Agropecuário. A isso se soma a exclusão da tomada de decisões, de socializar-se livremente e de decidir sobre seus próprios corpos. Esses elementos interseccionados com a variável raça colocam as mulheres negras a se localizarem nos lugares mais degradantes não somente por sua posição de classe, senão pela cor de sua pele.
Essas e outras questões relativas à disparidade do trabalho de homens e de mulheres são abordadas nos estudos denominados de Divisão Sexual do Trabalho, os quais constatam que o lugar ocupado pelas mulheres tem sido afetado pela simbologia da diferença entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher” e pela maior valoração do trabalho do homem em razão ao da mulher (Kergoat, 2009).
Neste sentido, um estudo denominado Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, divulgado em março de 2021 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, nos mostra a realidade do mundo laboral das mulheres. Os dados fazem parte da segunda edição do estudo e dão conta que, em 2019, 54,5 % das mulheres com idade a partir de 15 anos1 integravam a força de trabalho brasileira, enquanto o percentual masculino era de 73,7%. Com relação à diferença salarial, a pesquisa mostra que, em 2019, as mulheres receberam 77,7% do montante ganho pelos homens. O estudo também faz referência ao nível de ocupação de mulheres, na faixa etária entre 25 e 49 anos, com filhos de até três anos, foi de 54,6%, comparado às 67,2% do índice de ocupação das mulheres, da mesma idade, sem filhos. Quando se trata de mulheres negras nas mesmas condições, elas apresentaram os menores níveis de ocupação – menos de 50% em 2019 –, ao passo que, entre as mulheres brancas, a proporção foi de 62,6%.
Ao pesquisar sobre o impacto dos trabalhos domésticos, foi apurado que as mulheres dedicam quase o dobro do seu tempo aos afazeres da casa ou ao cuidado de outras pessoas. Enquanto nós dedicamos 21,4 horas semanais, os homens dedicam 11 horas. Mas, um recorte de raça revela que as mulheres pretas ou pardas estão mais envolvidas com os cuidados de pessoas e os afazeres domésticos, com o registro de 22 horas semanais em 2019, ante 20,7 horas para mulheres brancas. Para os homens, contudo, o indicador pouco varia quando se considera a cor ou raça ou região. Também se destaca que as mulheres pretas ou pardas eram as que mais exerciam o trabalho parcial representando 32,7% do total, enquanto entre as brancas o percentual foi de 26%. Outro dado interessante revelado pela pesquisa é que, quanto menor a renda da mulher, mais tempo ela gasta com os cuidados da casa (IBGE, 2021). Uma das deficiências do citado estudo é que não faz referência aos espaços rurais, mas sabemos por estudos de casos que os indicadores de desigualdade recaem com maior força nos corpos de mulheres que reproduzem a vida nesses espaços.
As relações de trabalho, no capitalismo, são baseadas na concorrência e na exploração da força de trabalho. Na economia solidária, as relações estão baseadas na ajuda mútua, no trabalho livre e coletivo e na igualdade entre os participantes. Com efeito, suas práticas podem constituir uma alternativa ao sistema de produção capitalista e, consequentemente, uma alternativa ao sistema patriarcal da divisão do trabalho, promovendo um espaço de mútua cooperação, inclusão produtiva de grupos marginalizados e excluídos, ressignificação do trabalho e do lugar ocupado pela mulher na sociedade. Em essência, as práticas da economia solidária podem contribuir para a superação de desigualdades históricas.
O fortalecimento da participação das mulheres nessas práticas vem ocorrendo através de empreendimentos protagonizadas por elas, assentados em ideais de ajuda mútua e autossustentabilidade, com a finalidade de gerar renda, criar espaços de convivência para a troca de experiências e o compartilhamento de crenças e valores, resgatar a autoestima e promover a participação e integração de grupos de pessoas com interesse comum. Apesar disso, observa-se que a igualdade preconizada pelos fundamentos da economia solidária ainda não foi plenamente alcançada pelas mulheres. Apesar de sua crescente e expressiva participação nas ações dessa nova forma de empreendimento, podemos notar determinados padrões indicativos do lugar da mulher ainda inferiorizado. Dados apontam que os empreendimentos solidários femininos geralmente são aqueles de menor porte e menor renda, apresentando maior fragilidade econômica e, muitas vezes, funcionando na informalidade. Para além dessas marcas, as mulheres têm encontrado na economia solidária uma alternativa ao desemprego e uma forma de conseguir conciliares as multitarefas do trabalho doméstico, encontrando seu espaço de luta, debate, reflexão, crescimento pessoal e desenvolvimento da cidadania (Guerin, 2005; Oliveira, 2005; Esmeraldo, 2018; Silva, Oliveira e Nóbrega, 2018).
A pesquisa que ora se apresenta foi desenvolvida junto a uma associação de mulheres agricultoras. A associação foi criada, em maio de 2017, a partir do lançamento de um edital público dirigido ao PAA - Programa de Aquisição de Alimentos da CONAB - Companhia Nacional de Abastecimento e em feiras livres, o qual trouxe incentivo específico para apresentação de propostas por coletivos e associações de mulheres produtoras rurais.
Nosso texto realiza uma abordagem de gênero e trabalho no contexto da economia solidária no intuito de contribuir para a construção de outro paradigma de economia; de somar esforços à luta feminista para romper com a naturalização da divisão sexual do trabalho. O artigo está estruturado em 4 seções. Na introdução se expressa o objetivo e a justificativa. Seguido pelos capítulos que abordam pressupostos epistêmicos e o caminho metodológico que orientou a pesquisa de campo. Após, apresenta-se as narrativas que fazem as mulheres sobre o trabalho e o significado da associação, junto a nossas reflexões sobre os limites que impõe o patriarcado como sistema de dominação, para finalizar com as conclusões e as referências utilizadas.
1. Economia Solidária e Economia Feminista: por um diálogo interdisciplinary
A economia solidária tem se mostrado como alternativa2 ao sistema patriarcal da divisão do trabalho, promovendo um espaço de mútua cooperação, inclusão produtiva de grupos marginalizados e excluídos, ressignificação do trabalho e do lugar ocupado pelas mulheres na sociedade.
Conforme salienta Antônio Cattani et al. (2009), o conceito de Economia Solidária é amplamente usado em diversos continentes com acepções variadas, mas gira em torno da ideia de solidariedade contrastando-se com o individualismo tão presente nas sociedades de mercado. Os autores a definem como “atividades econômicas organizadas segundo princípios de cooperação, autonomia e gestão democrática” (Cattani et al, 2009: 162). E acrescentam, “o agir coletivo da economia solidária, consubstanciado na autogestão, institui novos protagonistas no mundo do trabalho e nos embates da cidadania, em resposta a anseios de bem-estar, reconhecimento e vida significativa. (Cattani et al, 2009: 166).
O fortalecimento da participação das mulheres nessas práticas vem ocorrendo através de empreendimentos protagonizadas por elas, assentados em ideais de ajuda mútua e autossustentabilidade, com a finalidade de gerar renda, criar espaços de convivência para a troca de experiência e o compartilhamento de crenças e valores, resgatar a autoestima e promover a participação e integração de grupos de pessoas com interesse comum.
Reconhece-se que a participação na economia solidária tem permitido emancipação dos sujeitos e autonomia pessoal. As mulheres começam a se perceber como protagonistas da própria vida, se identificar com a experiência de outras mulheres na mesma situação e construírem projetos coletivos de emancipação. (Seminário Nacional de Economia Solidária e Feminista, 2018).
Estudo realizado por Aguayo e Ramirez (2019) em um assentamento urbano irregular, situado na periferia de Talcahuano, uma cidade do Chile, com o objetivo de conhecer o que chamaram atividades realizadas pelas mulheres “em baixo das sombras”. A pesquisa verificou que existia uma cadeia de cooperação, na qual grupos de mulheres se organizavam para angariar fundos de forma a atender as mais diversas necessidades coletivas, como reconstrução de barracos, construção de poços e até para a realização de festas da comunidade. Práticas que visavam à ajuda mútua e à melhoria das condições de vida e bem-estar de todos. Ao serem realizadas oficinas com as mulheres, constatou-se que, tais práticas, além de passarem despercebidas pelos agentes externos, também não eram consideradas como trabalho pelas protagonistas dessas ações, demonstrando que, apesar da importância do trabalho de reprodução e do cuidado desenvolvido por elas para reproduzir a vida, essas práticas não eram validadas como trabalho verdadeiro e socialmente reconhecidas. No desenrolar da atuação junto à comunidade, foram realizadas oficinas, em que as mulheres foram levadas a visualizarem e tomarem consciência do valor de suas atividades para a produção do bem-estar e reprodução da vida cotidiana, entendendo que o trabalho delas agregava valor à toda a sociedade. As autoras concluíram que “a socialização do trabalho do cuidado sai da esfera privada para resolver-se na esfera pública, de forma colaborativa” constituindo-se como uma grande possibilidade, cruzando a economia solidária e a economia feminista. Nesse aspecto, afirmam, “é necessário ampliar o conceito de Economia Solidária, reconhecendo a centralidade das estratégias das mulheres para a abordagem associativa de economias solidárias do cuidado” (Aguayo; Ramirez, 2019: 9).
Importa aqui ressaltar uma discussão que acreditamos fundamental ao considerar a economia solidária sob o viés do cuidado atrelado a características historicamente ligadas ao labor feminino: a falsa dicotomia entre o espaço público e privado. Como citado anteriormente, os empreendimentos solidários contam cada vez mais com a expressiva participação das mulheres e tem contribuído para trazer a luta pela articulação dos espaços público/privado, ou seja, a inclusão do espaço privado, da casa, da vida cotidiana, no espaço público. Essa interrelação entre as esferas do cuidado com a produção de bens não pode ser omitida porquanto ao fazê-lo se desconhece uma parte da riqueza social produzida: aquela aportada pelas mulheres na esfera doméstica.
Nesse sentido, reivindicamos aqui a importância epistêmica de estudar os empreendimentos da economia solidária em diálogo interdisciplinar com o campo da economia feminista.
A economia feminista constitui uma importante corrente de pensamento que problematiza toda a economia, as esferas mercantis e não mercantis, o trabalho remunerado e não remunerado, a produção e reprodução social, a divisão sexual do trabalho, o trabalho e o emprego. Propõe a ampliação do conceito de trabalho como condição para o reconhecimento da contribuição das mulheres para a economia na medida em que o trabalho realizado no lar é condição da existência do sistema econômico. Ao tornar visível o trabalho não remunerado e sua articulação com a economia produtiva formal, se coloca no centro da agenda política as contribuições do cuidado ao bem-estar social.
Não é possível aqui fazer uma análise das diferentes correntes da Economia Feminista, mas é possível indicar que assumimos a perspectiva de autoras como Pérez Orozco, (2006 e 2014), Picchio (2012) dentro da Economia Política. Visão orientada para a produção de conhecimento situado a partir das múltiplas experiências da diversidade das mulheres como agentes ativas nos processos de desenvolvimento.
Neste sentido, a sustentabilidade da vida é uma das abordagens mais poderosas para problematizar o campo de pesquisa da economia feminista (Picchio, 2005; Carrasco, 2009; Pérez Orozco, 2006 e 2014), pois permite encontrar vínculos com propostas teóricas que vêm de outras abordagens de cuidado. Essa abordagem transcende as hierarquias, os binários e a centralidade que o pensamento econômico moderno colocou no produtivo, estendendo o valor da economia para além do quadro público que produz bens ou serviços, posteriormente materializados em mercadorias e salários. As categorias: trabalho, cuidado, interdependência, responsabilidade, entre outras, apresentam-se como chave para a compreensão da reprodução da vida e aparecem nas narrativas das mulheres. Essas correntes teóricas deslocam sua leitura de gênero para a sustentabilidade da vida, para desconstruir os vieses androcêntricos e patriarcais do sistema como um todo, rompendo com as separações estanques de esferas e lugares atribuídas pelo pensamento moderno a homens e mulheres.
“Sustentar a vida”, seguindo Perez Orozco (2014), vai muito além do que as mulheres fazem em casa. Nas posições assumidas há uma reflexão crítica sobre o cotidiano, que é politizado e relacionado ao sistema como um todo; o que é extremamente útil para refletir sobre as experiências de gênero na economia solidaria. Essas abordagens reconhecem os limites em que o sistema coloca a própria vida para os quais colocam critérios éticos como a responsabilidade social do cuidado, aquilo que nos envolve como seres humanos e, claro, questionam o cumprimento das responsabilidades do Estado.
Uma das contribuições fundamentais da Economia Feminista é reivindicar e recuperar o lugar das mulheres no sistema econômico. São introduzidos novos elementos que colocam o trabalho não remunerado e as suas contribuições para o bem-estar social no centro da agenda política. A visibilidade do trabalho doméstico como reivindicação política não visa apenas tornar explícita a relação entre o trabalho de reprodução e o produto social, mas também abrir um debate sobre as normas de distribuição, os modos de produção e a qualidade da relação entre produção e reprodução (Giosa e Rodríguez, 2010:15).
A Economia Feminista tem uma carga propositiva, que visa desconstruir o que na literatura feminista se chama identidade em torno do cuidado e do bem-estar coletivo; ou o que se define como a constituição das mulheres como “seres-para-outros, estruturadas pela sexualidade, pelo trabalho e pela subjetividade, alienadas para dar vida, sentido e cuidado ao outros” (Lagarde, 2000: 45).
Desde a década de 1990, economistas feministas na América Latina têm destacado como o trabalho gratuito realizado na esfera reprodutiva pelas mulheres, por não entrar nas contas nacionais, torna-se um subsídio, uma sombra do crescimento econômico, enquanto só tem valor aquilo que contém expressão monetária. Isso significa que o trabalho que reproduz a vida não é riqueza, não entra, então, como riqueza produzida no PIB. Contudo, estudos indicam que na América Latina “o trabalho não remunerado representa uma proporção não inferior a 20% do Produto Interno Bruto” (Bravo, 1998: 63).
Estas análises incluem outros fenômenos como a pobreza e a pobreza de tempo das mulheres, que levam certos grupos de mulheres a pobreza por não ter tempo disponível para procurar as formas mais adequadas de satisfazer as suas necessidades, além de carecer de renda própria (De la Cruz, 2007 e 2011).
1.2. Economia solidária e economia feminista: aproximações e distâncias entre teoria e prática
Queremos destacar as ligações entre os debates propostos pela economia feminista e pela economia solidária. “Ambas coincidem numa reformulação conceitual da economia, num redimensionamento do reprodutivo e no reconhecimento do peso da dimensão simbólica e cultural” (Quiroga, 2009: 25). Estas visões, seguindo a referida autora, partilham a necessidade de avançar na desmercantilização dos principais bens e serviços que garantem a vida humana, de recuperar a soberania sobre o trabalho e o desafio de encontrar e ampliar novas formas de organização do trabalho orientadas pela autogestão.
A Economia Feminista considera o gênero3 como uma variável substancial em todos e cada um dos processos que relacionam à economia, o trabalho, a sustentabilidade da vida, entre outros. Tanto a economia solidária quanto a feminista encontram em espaços não mercantis relações mediadas pela afetividade, pelo amor e pelo cuidado. Uma ação desmistificadora da crematística da vida, ao qual o capital nos condena quando traduz todas as relações num valor monetário; considerando como trabalho apenas aquilo que pode ser trocado por um salário, desvalorizando assim todas aquelas atividades que são essenciais para reproduzir a vida, mas que ao mesmo tempo são essenciais para reproduzir o capital, uma vez que incorporaram o que Federeci (2017) chama de mais-valia ‘invisível’. Isto é, são essenciais tanto para sobreviver com dignidade como para a manutenção da produção capitalista (Carrasco, 2009).
Na busca da possibilidade de uma agenda comum entre a economia solidaria e a economia feminista Nobre (2015: 14) indica que:
En una combinación de análisis y práctica la economía solidaria, en diálogo con la economía feminista, abre la posibilidad de superar fragmentaciones entre producción y reproducción, entre lo político y lo económico. Sus prácticas se constituyen como una economía política de la resistencia. Al ser ejercidas en una sociedad capitalista y patriarcal, organizan una agenda que implica la caracterización del sujeto político y la elaboración de demandas hacia el Estado en cuanto a acceso a medios de producción, gestión y comercialización.
Contudo, a necessidade de diálogo entre as duas áreas do conhecimento impõe desafios na ordem teórica e na prática diária dos empreendimentos da economia solidária (vendo esta última na sua natureza política). Observa-se a incorporação da perspectiva feminista na reflexão teórica sobre a economia solidária. Qualquer breve pesquisa em repositórios científicos revelaria a cegueira de gênero que caracterizou as reflexões dos chamados gurus da economia solidária na América Latina, para citar um exemplo.
Na prática cotidiana, estudos empíricos sobre economia solidária, como os realizados por Hirata e Kergoat (2007), Nobre (2015), Guevara (2020), mostram os sinais visíveis do sistema de dominação patriarcal em termos da divisão sexual do trabalho, sobrecarga das mulheres com atividades de cuidado, invisibilidade ou informalidade de muitos dos grupos onde atuam; obtenção desigual de rendimentos ou em estruturas de poder dominadas por homens.
Pessoa Ramos e Peixoto (2008), ao analisarem esse fenômeno, justificam a reprodução do comportamento do “mundo do trabalho hegemônico” pela tendência histórica de divisão das atividades laborais em “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”. Já Costa (2011) afirma haver uma relação com a dupla jornada de trabalho em que as mulheres conciliam o trabalho doméstico com o trabalho fora de casa, limitando seu tempo e minando sua disposição para se dedicarem à formalização e gestão de seus projetos. Questão constatada também no trabalho de campo da presente pesquisa, na qual a totalidade das entrevistadas se apresenta como responsáveis pelo trabalho que cotidianamente reproduz a vida.
Em 2011, quando escreveu seu artigo “Mulheres e economia solidária: hora de discutir a relação!”, Jussara Costa (2011) constatou que as mulheres não foram incluídas na preocupação com o fim da desigualdade social preconizada pela economia solidária. Segundo a autora, o Fórum Brasileiro de Economia Solidária demonstrou em suas propostas ainda não atender às reivindicações das mulheres por igualdades e direitos, e condições no mundo do trabalho.
Assim, uma das contribuições fundamentais da economia feminista é recuperar o lugar das mulheres no sistema econômico; relevantes para tentar nos visibilizar, a partir das experiências situadas das mulheres, seu papel nas atividades de cuidado apreendendo a inter-relação entre gênero e economia solidaria. Considerando essas perspectivas, é que nos propusemos adentrar ao cotidiano das mulheres da Associação das Mulheres Agricultoras de Perdões.
2. O cotidiano em escuta e observação
O caminho de escuta e de observação no cotidiano das mulheres da associação das Mulheres Agricultoras implicou em si mesmo numa aventura metodológica na tentativa de explorar a vida vivida. Submergimos nos movimentos identificados para, como sugerido por Alves (2003), executar um mergulho com todos os sentidos, compreender os limites do conhecimento que habitualmente nos serviram de apoio e “virar de ponta cabeça”, ampliar as fontes de pesquisa e “beber em todas as fontes”; e por último, a escrita do resultado “narrar a vida e literaturizar a ciência”. Ir fundo nas narrativas das experiências dessas mulheres requereu o desdobramento da pesquisa adotando outros caminhos metodológicos, pois como pesquisadoras nos interessava também revelar os permanentes sinais do patriarcado escamoteados em suas palavras. Devíamos, “(...) desentranhar, fazer emergir, revelar, descobrir, desvendar, expor à luz (….) perceber o fluxo da potência (subterrânea)” (Silva, 2003: 73).
Nesse caminho foi preciso trilhar com leveza e atenção para identificar as relações de patriarcado nas falas de cada uma das mulheres, em suas ênfases na cotidianidade que contextualizam o lugar desde o qual, cada uma delas narra sua experiência. Usamos como recursos técnicas qualitativas de coleta e análise dos dados, com o objetivo de chegar a uma compreensão do grupo em estudo, procurando compreender quem são, quais suas atividades e como se relacionam entre si e com o mundo (Becker 1999). Neste sentido escutar as narrativas permite-nos refletir sobre as interações e conflitos relacionados às mulheres com a realidade mais ampla que as insere. Portanto, o corpo que fala emerge dessa experiência social na qual são construídos e denominados por linguagem.
Para além das entrevistas narrativas, utilizamos da observação participante e da pesquisa documental como formas complementares de obtenção de informações (Vergara, 2005). Para a análise documental, foram consultadas as atas da associação, reportagens publicadas no jornal online “A Voz” e postagens das redes sociais da associação.
Ao privilegiar as narrativas, abrimos à possibilidade de tecer as histórias narradas na complexidade do real em que ganham sentido e se tornam coerentes “bem como fornece o contexto em que nós entendemos cada um dos acontecimentos, atores, descrições, objetivos, moralidade e relações que geralmente constituem a história” (Bauer; Gaskell, 2002: 92).
Para Camila Muylaer et al (2014: 194), “as entrevistas narrativas se caracterizam como ferramentas não estruturadas, visando a profundidade, de aspectos específicos, a partir das quais emergem histórias de vida, tanto do entrevistado como as entrecruzadas no contexto situacional.” Requerendo de nós, pesquisadoras uma escuta atenta, deixando-nos atravessar pelos aspectos singulares que emergem de cada história. Rubem Alves (2004), nos fala sobre a beleza do saber escutar:
O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você...” A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. (Alves, 2004: 73).
Consideramos importante salientar que, enquanto pesquisadoras, com uma visão interessada e engajada nos estudos feministas, não somos isentas de nos posicionarmos ética e politicamente. Haraway (2009) discorre sobre o afastamento da falsa neutralidade do pensamento hegemônico científico ocidental em busca de um olhar posicionado que procura traduzir as vivências, sensações e afetos a partir da perspectiva dos estudos feministas do Sul: “O feminismo tem a ver com uma visão crítica, consequente com um posicionamento crítico num espaço social não homogêneo e marcado pelo gênero. A tradução é sempre interpretativa, crítica e parcial” (Haraway, 2009: 31).
É importante ter em mente a natureza “corporizada” das experiências narradas, que trazem histórias e pontos de vista diversos. É possível assim, desde o ponto de vista metodológico, construir uma espécie de cartografia das experiências protagonizadas pelas mulheres, tecer as narrativas individuais com as coletivas e olhar através das janelas que elas abrem para a estrutura que relaciona o aparentemente invisível com a estrutura socioeconômica mais ampla.
O local de realização da pesquisa empírica foi um município do sudoeste de Minas Gerais, localizado no Campo das Vertentes, na microrregião de Campo Belo e tem um território de 276,978 km². A população estimada pelo IBGE em 2021 é de 21.485 mil pessoas e apresenta densidade demográfica de 74,22 hab/km², contando com cerca de aproximadamente 90,03% da população situada na área urbana do município. O volume da produção mercantil dependente de atividades econômicas desenvolvidas no meio rural, como a produção e beneficiamento do café, a pecuária de corte e leite, e outras produções agrícolas alcançam grande parte da população economicamente ativa, assim como estabelecem padrões do modo de vida rural no cotidiano, mas o espaço é oficialmente classificado como urbano. O salário médio dos trabalhadores formais em 2018 era de 1,9 salário-mínimos e, nesse mesmo ano, havia 4.867 pessoas ocupadas (formalmente), totalizando 22,9% da população.
Quando da realização da pesquisa a associação contava com 35 associadas. A amostragem para as entrevistas narrativas foi intencional de acordo com a aceitação e disponibilidade das mulheres em conceder as entrevistas.
A associação é composta por mulheres entre 27 e 56 anos, 90% das mulheres são casadas ou possuem união estável e 90 % delas possuem um ou mais filhos. Quanto à renda mensal, 60% das mulheres recebem até um salário-mínimo. As propriedades são de pequeno e médio porte, 77,8% delas possuem até 5 hectares, o que corresponde a 50 mil metros quadrados. Mais de 50% não são titulares de terras, algumas trabalham em terras arrendadas. Chamou-nos a atenção o fato de somente encontrarmos duas mulheres negras que trabalham na terra em condição de arrendamento; sendo Minas Gerais contexto de escravidão a resposta a essa ausência encontramos na própria história que não deu acesso à terra para ex-escravos. A fim de manter o anonimato das entrevistadas, cada mulher se identificou com uma flor, de sua preferência.
A técnica de observação participante foi realizada por meio da participação em todo processo da aplicação de um diagnóstico participativo, bem como na devolutiva dos resultados, nas visitas de campo realizadas nas propriedades, na visita à feira livre e na entrega dos produtos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que é realizada uma vez por semana.
Os encontros para as entrevistas aconteceram sempre em meio dos muitos afazeres diários dessas mulheres, sempre com certo incômodo, por tomar-lhes o tempo tão precioso. Após a realização das entrevistas, se fez a transcrição e separação das narrativas, em categorias, de acordo com os objetivos, o que permitiu fazer uma análise e interpretação de conteúdo em diálogo com o campo teórico apresentado.
3. Narrativas sobre o trabalho e o significado da associação: os limites impostos pelo patriarcado
Escutar empaticamente as narrativas destas mulheres é estar frente a corpos que o trabalho roubou sua infância. Todas elas começaram a trabalhar muito cedo. Era costume os pais delegarem tarefas às crianças. O trabalho em família é característica marcante na vida de todas elas. O trabalho doméstico e de cuidado, ajudando a criar os irmãos, fez parte do cotidiano daquelas que possuem irmãos mais novos. “Comecei a trabalhar com oito anos sempre ajudando meu pai na roça”, nos diz Orquídea (56 anos). Ela conta que começou a trabalhar aos 13 anos como empregada doméstica. Rosa (27 anos) nos conta o seguinte: “Desde criança o pai e a mãe sempre mexeu com café, aí desde pequena fui levada pra lavoura de café e aí, quando eu tinha mais ou menos 11 anos, aí o pai fez um paninho de saco, daqueles saco de fubá, aí costurou, fez um paninho de café pra mim, aí eu peguei, aí eu comecei ‘panhar’ café”.4
Copo de Leite (57 anos) conta que aprendeu a trabalhar muito cedo: “lavava roupa no ribeirão, batia na pedra, carregava bacia na cabeça, estendia na cerca”. Após a separação dos pais, ela conta que teve de trabalhar em casa de família, junto com sua irmã, para “colocar comida dentro de casa”. Ganhava meio salário e ainda conseguia pagar seus estudos, porque sempre teve em mente que tinha de estudar para ser alguém. Hoje, ela é pós-graduada. Ela nos conta que sua casa era muito pobre e a vida não foi fácil e, sorrindo, nos diz: “a minha história é meio triste, mas vocês não precisam chorar não, porque hoje eu sou uma mulher feliz”. Copo de Leite conta muito orgulhosa, que com o esforço do seu trabalho conseguiu proporcionar estudo aos irmãos, às filhas e ainda conseguiu construir as casas que hoje a família possui. Nas narrativas identifica-se que o fato de começarem a trabalhar muito cedo, aliado às dificuldades de locomoção, dificultou a permanência de algumas das entrevistadas na escola.
Um fato interessante a ser observado é que as mulheres relatam que, além de grande parte trabalho doméstico a elas atribuído na roça, o trabalho braçal era tão pesado quanto dos irmãos homens: “eu trabalhava igual homem mesmo, assim, eu capinava, ‘panhava’ café” (Suculenta, 49 anos). Ainda hoje, o trabalho realizado por elas não é nada leve. “Eu não tenho dificuldade nenhuma em roçar, capinar, limpar, porque eu fui acostumada com isso”, nos diz Girassol.
Todas as entrevistadas fizeram questão de frisar que não têm medo de trabalho e acreditam na força do seu trabalho.
A gente trabalhava, plantava café, vendia leite [...] eu era agente de saúde aqui, depois eu fui trabalhar numa padaria. [...]eu desosso boi, desosso porco, eu não sou de desistir fácil, eu sou persistente. Eu já trabalhei de vender leite na rua, eu punha 60 litros de leite numa moto, [...] já fui padeira, entregava pão de moto, agora ‘tô’ nesse projeto, sabe, e eu creio que vou conseguir em nome de Jesus! (Suculenta).
É interessante notar como ainda carregamos conceitos do chamado princípio da separação, salientado por Kergoat (2009). Separamos “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”. Ao citar que trabalhava igual homem, Suculenta traz essa crença ainda tão arraigada em nós, de que o trabalho pesado pertence aos homens, mesmo que saibamos darmos conta de fazê-lo, como observou Paulilo (1987).
Em muitas das falas dessas mulheres estão expressas experiências encarnadas e relações afetivas com a terra, como a de Suculenta que diz que a agricultura está dentro dela, “eu adoro, sabe? É uma coisa que tá no sangue [...] eu fico ali, eu planto uma sementinha, eu fico olhando para ver se ela tem brotinho, se tem uma raizinha, se tem ali um bichinho ‘atacando ela’”.
Além do trabalho na produção da roça e/ou do artesanato, o trabalho doméstico e do cuidado faz parte da vida de todas essas mulheres. Todas cuidam da casa e poucas contam com a colaboração dos demais moradores. Ao serem indagadas sobre como as tarefas domésticas são distribuídas, das dez entrevistadas, somente três disseram ter “ajuda” do marido e dos filhos. A palavra “ajuda” internalizada no subconsciente das mulheres desde bem cedo; é parte da domesticação que sobre os corpos femininos fazer o sistema de dominação patriarcal nesse micro espaço que é a família.
O serviço de casa é feito nas horas que seriam de descanso, Suculenta explica: “o serviço de casa fica assim, sabe, eu faço de noite, tem dia. Lavo roupa, mas é de noite, às vezes eu deixo a roupa lá na máquina lavando, a hora que eu chego eu ponho no varal.” Conciliar o tempo de forma a dar conta de toda essa rotina, não é fácil. “A gente acorda com as galinhas e deita com as galinhas! É essa rotina aí. O dia não para; eu falo, às vezes, eu sento só pra almoçar ali rapidinho [...] eu queria ser duas, se tivesse uma forma. Eu não dou conta, às vezes eu quero fazer muito, muito.” (Hortência).
Na rotina diária há um grande acúmulo de tarefas centrada nas mulheres que, por muitas vezes e em repetidas situações, exercer uma jornada dupla ou tripla de trabalho iniciada no alvorecer até entrada a noite. Por exemplo, Dália conta que tem 55 anos. Seu dia começa às 5h30min da manhã. Logo pela manhã ela costuma fazer queijo e a tarde ela conta que cuida da horta. Na horta ela planta cenoura, beterraba e verduras. Em algumas tardes, Dália cuida da neta na cidade até às 17h e/ou do pai que é acamado. Quando passa a tarde no sítio, vai para a cidade no fim da tarde para vender leite para uma mercearia. Por volta das 18h faz janta e às 20h volta para a cidade para trocar o pai. Por volta das 21h volta para o sítio e dorme.
De nossas entrevistadas, 90% delas cuidam ou cuidaram de algum parente idoso. A interrelação entre as esferas do cuidado com a produção não pode ser omitida. As discussões trazidas por Laville (2009) sobre o combate à dicotomia público/privado, produção/reprodução trazem a necessidade de discussão a respeito da distribuição de responsabilidades do cuidado, que sempre recai sobre as mulheres. Para o autor, os problemas da vida cotidiana também são problemas da vida política.
O cotidiano das mulheres mostra como o “cuidado de si” passa pelas hierarquias e subordinações que o sistema socioeconômico impõe às relações sexo/gênero, já descritas pelo feminismo. A cultura patriarcal prepara as mulheres como seres para os outros/as, sempre sobre-exigidas, negligenciando o “cuidado de si”. Para Foucault (2010), cuidar de si passa pelo autoconhecimento por meio do que esse autor chama de “tecnologias de si”. Esse conjunto de práticas que nos fazem sujeito trata de expressões relacionadas a: prestar atenção em si, olhar para si, examinar-se; concentração em si mesmo como refúgio; ir às profundezas de si mesmo e, a partir daí, sanar, curar-se, reivindicar-se; e, por último, relaciona-o com a autossatisfação, exercendo a auto soberania (Albano, 2004).
Entenderam-se as narrativas como uma forma de comunicar experiências subjetivas, uma das tecnologias do eu passa pela vontade de narrar, pela capacidade de falar com alguém com capacidade de escuta, e nesse processo de dizer a partir de um lugar específico de enunciação, produz-se uma reflexão que volta seu olhar para si mesma, para sua condição e posição, o que constitui em si um ato reivindicativo em si mesmo.
Os cuidados consigo mesma ficam deixados de lado pela falta de tempo. Suculenta desabafa: “Eu não ando tendo muito tempo não, igual, a sobrancelha sem tirar, o cabelo sem arrumar, a unha daquela base. Mas eu não ando tendo muito tempo não. Eu não tenho ajuda não, eu ando trabalhando meio direto”. Ao ouvir o relato dessas mulheres, que se desdobram em cuidar da casa, do trabalho na roça e do cuidado com pessoas idosas, nos lembramos do que salientou Costa (2011) e Pereira e Gonçalves (2017), quando dizem que a dupla (ou tripla, no caso de algumas associadas) jornada de trabalho constituem um fator dificultador para o desenvolvimento de suas atividades de renda, limita o tempo das mulheres e mina sua disposição para se dedicarem aos seus projetos. Federici (2018) também confirma que esse excesso de carga de trabalho, seja remunerado, seja em casa, significa para a mulher menos tempo, menos energia e mais empenho gasto na reprodução da própria força de trabalho. O que a economia feminista denominou como pobreza de tempo das mulheres. Isso justifica, em parte, as dificuldades para participar nas atividades da Associação.
Podemos perceber como a presença da lógica do patriarcado mina o tempo e a disposição para se dedicarem mais à Associação: “a gente sabe da realidade de cada uma. Às vezes a gente quer ‘tá lá’, tá querendo ir lá ajudar, mas a gente sabe que o marido e a filha estão em casa esperando para jantar. Isso não é realidade só minha, é a realidade de todas!”, nos diz Girassol, que tem jornada tripla de trabalho.
Fica evidente que a pauta do cuidado deve ser entendida como parte importante do entendimento da economia solidária “reconhecendo a centralidade das estratégias das mulheres para a abordagem associativa de economias solidárias do cuidado” (Aguayo e Ramirez, 2019: 9).
O ingresso na Associação de Agricultoras teve impacto positivo na vida de todas as suas integrantes, oferecendo muitas possibilidades, oportunidades e aprendizados. Para Adália (41 anos), que é associada desde o começo, a associação representa um olhar diferente para as mulheres. Ela diz que as pessoas se espantam ao saber que no município tem uma associação de mulheres. Num município pequeno, com tradição na cafeicultura e pecuária a dominação, masculina (pedindo permissão para uso do termo a Pierre Bourdieu), só quer mulheres reunidas na igreja; mas a criação de uma organização, a sua atuação como sujeito coletivo, é em si um ato de coragem, de resistência política contra o cotidiano da subordinação das mulheres no mundo rural tradicional. A ruptura com as relações de gênero naturalizadas aparece aos poucos nas narrativas sobre o que a Associação traz para elas. Adália reconhece a importância da associação e entende os recursos recebidos em razão das políticas públicas como um direito delas. Ao falarem da dimensão política da emancipação, Mundim e Teodósio (2011) enfatizam a possibilidade de grupos como o que estudamos construírem com autonomia suas formas de representação de interesses. A dimensão política na realidade da economia solidária também é enfatizada por França Filho (2001).
Já Jade, em sua narrativa, considera a associação um fortalecimento muito sadio para as mulheres. Ela tem orgulho quando pensa que os filhos de todas, ao receberem a merenda escolar, vão dizer “isso foi produzido por minha mãe!”. Reconhece a força da associação na vida das mulheres na cooperação entre elas e no fortalecimento do trabalho umas das outras. A importância da mútua cooperação entre as mulheres é expressada: “O pouco que a gente encontra, porque é difícil mesmo, né? Vale a pena. Um pouquinho que você fala assim eu tenho um vínculo com aquela pessoa, por causa da associação, ela pode contar comigo, né?” (Jade). O convívio com outras mulheres que possuem situação de vida semelhante para troca de experiências, é um impacto positivo da participação de mulheres em empreendimentos da economia solidária, conforme salienta Silva; Oliveira e Nobre (2018). O alcance da independência financeira, com a geração de renda e autonomia econômica também é citado pelos autores/as.
Comentando sobre a importância de a mulher ter uma renda em seu próprio nome, a autonomia financeira, Jade lembra que, na maioria das vezes, as mulheres não têm acesso ao dinheiro que o marido ganha no trabalho e seria justo que ela partilhasse dessa renda, porque “a mulher trabalhou muito pra aquilo acontecer, porque até para que a marmita tivesse pronta, ‘pra’ que ele comece lá no meio da roça. E esse dinheiro nunca chega né? Então é muito importante” (Jade). Essa fala nos remete à importância de reconhecer que o trabalho de reprodução das mulheres é tão valioso quanto o trabalho de produção, conforme salienta Oliveira (2005). Validar esse trabalho e sua importância na reprodução da vida, fazendo com que as mulheres reconheçam seu valor é trazer à esfera pública o que antes ficava nas sombras, como nos dizem Aguayo e Ramìrez (2019); reivindicação que dialoga com os aportes teóricos da economia feminista.
Rosa é associada desde o começo, narra sobre as dificuldades iniciais e as dúvidas surgidas nas primeiras entregas para o Programa de Aquisição de Alimentos, não foi fácil, porque não conheciam como funcionava e demorou muito a vir o dinheiro. Segundo ela, passaram-se 5, 6 meses e nada. Aí muitas pessoas começaram a reclamar, o marido começou a ficar nervoso e quis que ela saísse da associação, ela disse a ele: “bem, ‘nóis’ não pode sair da associação, não, porque se todo mundo resolver sair, como que faz? A associação não consegue viver, vamos continuar, Deus ajuda que vai dar tudo certo, tem que confiar [...] aí, quando vê, graças a Deus, deu certo, aí o dinheiro veio!”.
O ganho que ela tira com seus produtos, ainda não é muito, mas já dá pra complementar a renda da família, dá pra comprar suas “coisinhas” e até ajudar o marido quando ele está sem dinheiro, reforçando o que diz Silva, Oliveira e Nóbrega (2018), quando afirma que uma das transformações sociais observadas em mulheres participantes de grupos de economia solidária é a desvinculação da imagem da mulher ao trabalho do marido e autonomia econômica para contribuir na renda da família e na aquisição de objetos pessoais.
Ela ainda nos diz que a associação faz com que as mulheres sintam ter o seu lugar. Isso confirma o que dizem Mundim e Teodósio (2011), que a participação feminina nos grupos de economia solidária, pode atuar positivamente nos processos de emancipação, (re)significação do trabalho e do lugar ocupado por elas na sociedade. Rosa nos diz, com brilho nos olhos:
[...] nós mulheres, através da associação, a gente vê que a gente ainda pode chegar onde a gente quer, lá na frente! Por mais que é custoso, que ainda tem alguma burocracia, algumas coisas assim, mas a gente vê que quando tem mais mulheres junto, a gente tem mais força, né? De vencer. Que graças a Deus ‘nóis lá vai’ vencendo! (Rosa).
A fala de Rosa nos lembra a Guerin (2005) quando aponta que a união das mulheres em torno de empreendimentos solidários, funciona como espaço de compartilhamento, de lutas e conquistas. É bonito ver como Rosa tem evoluído. Ela já participou com desenvoltura de um debate ao vivo, nas redes sociais (live), tendo discutido a presença da mulher na agricultura. Seu crescimento também tem sido notado no desenvolvimento de sua página no Instagram, onde apresenta seus produtos e usa de estratégias de marketing digital para comercializá-los. É nítido em seu olhar e seu sorriso o quanto ela ama fazer parte da associação. A participação fez a Rosa florescer!
Logo começaram a vender na feira, mas com as restrições impostas pelo avanço da COVID-19, tiveram que parar. Podemos perceber nesse e nos demais relatos, como o trabalho das mulheres foi diretamente afetado pela pandemia, como nos afirmam Palermo e Capogrossi (2021). Ainda reforçam que os setores com maiores níveis de informalidade são os que mais foram impactados.
Apesar de toda dificuldade, Suculenta se diz muito satisfeita por ser associada: “O que mais me atrai na Associação é a união [...] gosto de conviver com mulheres que tragam coisas boas”. Esse espaço de compartilhamento propicia às mulheres seu espaço de fala, de troca de experiências e de crescimento (Guerin, 2005). Para ela, a Associação foi a resposta a seu sonho de fazer de sua roça uma propriedade autossustentável.
Foi uma porta que se abriu pra mim, né? Eu entrego já minhas verduras lá na EMATER5 local de entrega dos produtos do PAA6 e PNAE7, eu ganho, assim, já tá ajudando nos gastos, né, porque eu tô conseguindo, por exemplo, eu já comprei, eu ‘tô’ com meus porcos, que já tá criando, que já deu cria, eu já ‘tô’ plantando milho pra alimentar eles, eu já plantei bananeira, já plantei cana, eu tenho horta lá embaixo. E a Associação me ajuda demais porque eu perdia muito na época, por exemplo, eu levava pra feira, não vendia, perdia, agora não, agora eu entrego lá na EMATER. (Suculenta).
Para Girassol, o grupo tem colhido muitas coisas boas. Hoje ela acredita que a Associação precisa de mulheres que estejam dispostas a se capacitar. Não basta mais somente entregar os produtos e não se comprometer com as ações do grupo. As integrantes já estão se capacitando e necessitam de mulheres que venham para somar: “pra gente manter esse programa, tem todo um protocolo a seguir [...] a gente tem um planejamento, a gente tem um cronograma, a gente tem várias coisas a seguir.” (Girassol).
Para compreender de que forma as práticas de economia solidária têm auxiliado no processo de emancipação dessas mulheres, foi necessário conhecer e reconhecer a história da Associação e das mulheres que fazem parte desse grupo. As ações da associação na conquista de meios para escoar a produção, como a participação no PAA e no PNAE, a participação nas feiras e demais eventos, têm contribuído para a conquista da autonomia financeira das mulheres; além da satisfação de serem pessoas que produzem seus próprios alimentos e fazer parte das redes alimentares locais.
Pelas narrativas ouvidas, podemos notar que, por se tratar de uma associação relativamente jovem, que teve suas atividades atravessadas pelas imposições restritivas de uma pandemia sem precedentes, o grupo tem dedicado o esforço e o tempo escasso das associadas na estruturação da associação e no atendimento das demandas mais urgentes relacionadas diretamente ao trabalho das mulheres agricultoras e artesãs. A pandemia trouxe muitos prejuízos a todas. Prejuízos financeiros, materiais e emocionais. Como ouvimos nos relatos, muitas perderam a produção, deixaram de produzir, abandonaram as atividades da feira e tiveram que se adaptar à nova condição, trazida pelas medidas de distanciamento.
O retorno dos encontros, em reuniões ou cursos e o incentivo à participação, têm fortalecido o vínculo entre todas, propiciando a criação de uma identidade de grupo. Como nos diz Gerânio: “É uma pela outra! Não tem jeito, sozinho a gente não consegue, porque a Associação só consegue se fortalecer se todo mundo tiver o mesmo objetivo. É objetivo! A gente vai conseguir, vamos todo mundo junto que vai dar certo!”.
As práticas da associação vêm, aos poucos, contribuindo como um espaço de interação entre as mulheres. É presente, nas falas, como o encontro com as colegas é prazeroso. Orquídea comentou que uma das coisas que ela mais gosta é quando todas se reúnem. Conversar, saber do trabalho da outra, poder colaborar com uma dica ou uma ajuda. Outras mulheres também mencionaram a alegria e a importância do encontro com as colegas. O compartilhamento de experiências no convívio com outras mulheres em situações de vida semelhantes e a troca de experiências são apontadas por Silva, Oliveira e Nóbrega (2018), como uma possibilidade de conquista na participação das mulheres na economia solidária.
É notável que com a volta dos encontros presenciais, a participação no curso da Cultura da Cooperação, teve início um movimento no sentido de começar a entender o que elas chamaram de “pertencimento”, a importância da formação de uma consciência coletiva e da participação política e social.
É importante que a associação seja também um espaço onde explicitamente as desigualdades de gênero sejam também problematizadas, onde a violência que as mulheres sofrem não seja mais silenciada e o controle masculino naturalizado.
Durante o trabalho de campo observamos a estranheza com que se reagia ante estes temas, inclusive quando foram introduzidos por alguma colega mais esclarecida. Por exemplo, quando uma delas publicou no Instagram “juntas somos mais fortes” com imagens simbolizando o poder feminino. “A reação masculina foi: ``olhem o que, estão indo por caminho errado, isso é feminismo”. Durante as visitas também observamos como são exercidas as relações de poder masculino na organização dos espaços dos pomares.
As falas das mulheres para nós são janelas que nos conectam com um contexto mais amplo, tanto a escala nacional como global, marcado pelo conservadorismo religioso e político, pela fragilização dos direitos democráticos já conquistados pela luta feminista, pela satanização dos temas de gênero e diversidades sexuais e sua inclusão no campo educativo.
O debate sobre gênero e feminismo ainda é cercado de tabus e preconceitos entre as próprias mulheres e por ações que, muitas vezes, prestam um desserviço à causa. Pela fala de algumas entrevistadas, compreendemos que existe certa resistência a manifestações e debates dessa natureza, em parte movida pelo desconhecimento, em parte movida pela repressão e controle masculino. Coincidimos com Saffioti quando caracteriza ao patriarcado como “uma máquina bem azeitada, que opera sem cessar” (Saffioti, 2009, p. 6), sendo que muitas vezes, acionada por mulheres, que apesar de não serem cúmplices, agem de forma a colaborar com o funcionamento dessa máquina.
Uma de das entrevistadas referindo-se ao debate desses temas na associação expressou:
[...] o marido, se ele vê, ele não deixa participar mais. Não deixa mesmo! [...] Tem marido de associada que não deixa ela ir sozinha na Associação, não deixa! Mas em hipótese alguma, não deixa! Entendeu? [...] tem muitos que não deixam a associada ir sozinha lá porque têm medo do que elas vão ouvir. Essa questão do feminismo, ela existe mesmo. O engraçado é que as pessoas se assustam muito com essa coisa de feminismo, dessa luta. Mas é isso, né? A associação, ela tá aí justamente para fortalecer as mulheres (Jade).
A luta feminista se configura na busca por uma sociedade em que homens e mulheres tenham direitos iguais, sem hierarquia de gênero. Uma sociedade em que a mulher seja respeitada e ouvida. Saffioti (2009) acredita que o patriarcado é uma relação de dominação material e simbólica dos homens sobre as mulheres. Para ela, o patriarcado seria uma relação de gênero, configurando-se em um tipo hierárquico de relação, que invade todos os espaços da sociedade, tem uma base material e corporifica-se, representando uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na violência. A autora concorda com Pateman (2008) ao afirmar que o patriarcado não se delimita apenas à esfera privada, ao contrário, o poder patriarcal atinge todas as estruturas da sociedade, da esfera privada à pública, da sociedade civil ao Estado. A ordem patriarcal assegura aos homens os meios de produção e reprodução da vida social, onde eles se relacionam de forma hierárquica, desempenhando funções sociais diferenciadas. Em contrapartida, as mulheres desempenham o papel de objetos sexuais dos homens, produtoras e reprodutoras da força de trabalho.
Durante o trabalho de campo foi possível observar o controle masculino sobre os corpos e a fala, por exemplo, acompanhar e querer estar sempre presente nas reuniões do grupo, estar ao lado da mulher no momento da entrevista, sempre buscando justificativas para estar presente, interromper as conversas da mulher como se fosse uma menor que tivesse que ser conduzida pela mão; ou o controle exercido sobre as postagens do grupo nas redes sociais. Uma espécie de “violência simbólica, violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento” (Bourdieu, 2012: 7-8). Sem descartar outras formas de violência sussurradas nos bastidores, como algo que todas sabem mais do que não querem ou têm medo de comunicar.
Durante uma das reuniões do grupo, nos dias de trabalho de campo, Jade manifestou o desejo de formação nesse sentido. Falou-se sobre a importância de levar as associadas a visualizarem o fato de estarem unidas numa associação de mulheres e de participarem de projetos de políticas públicas que favorecem e incentivam a participação das mulheres, já se constitui um ato feminista; sobre a importância de desmistificar essa visão simplista que reduz o feminismo a uma luta contra os homens! Toda vez que uma mulher busca se emancipar, ter sua renda própria, buscar uma melhor condição de vida para os filhos, melhores condições de trabalho e educação, comida saudável no prato; cada vez que uma mulher exige ser respeitada, ter seu corpo respeitado, ter sua voz ouvida e ter sua própria opinião, ela está fazendo parte da luta feminista contra o sistema patriarcal e capitalista em que vivemos. Cada vez que uma mulher reconhece e legitima a importância do seu trabalho, seja ele remunerado ou não, em casa ou fora, e exige reconhecimento, ela está se posicionando de forma feminista.
Jade acrescentou na discussão sobre as possíveis dificuldades na relação entre marido e mulher. Relatou que “homem não pode ver mulher abrir asinha”, no sentido de que o protagonismo feminino intimida os homens. Ela sugere um trabalho onde as mulheres possam falar dos problemas com os maridos sem serem julgadas. Assim, as discussões de gênero surgiram ao tratar da participação na Associação. Nesse sentido, Rosa ponderou que os maridos nunca legitimam o cansaço do trabalho delas, o valor que ganha é gasto conforme o que precisa e ajuda com as contas de casa. No entanto, considerou em seu caso que seu marido e ela se ajudam no compartilhamento de contas.
Portanto, após essa discussão, elas consideraram como principais causas elencadas sobre esse problema a locomoção, o trabalho diário, a dependência em relação ao marido, a falta de consciência e compromisso para com a Associação. Com base nessas considerações elas apontaram como objetivo a ser alcançado o seguinte: conscientizar todas as associadas sobre a importância da associação. E, para alcançar esse objetivo, apontaram entre os caminhos: sensibilizar as associadas, pelo convite à participação de reuniões, de cursos, conversas em cada propriedade, ligar para cada uma que tenha mais intimidade, conversas.
Lançar um olhar às mulheres da Associação, ouvir suas narrativas foi instigante e desafiador, porque levou-nos a ir e voltar revisitando outras investigações empíricas semelhantes e retornando à nossa reflexão teórica nos campos da economia solidária e da economia feminista. Ao colocar o vivido em palavras, elas preencheram de sentido a própria história em correspondência ao entramado lógico e subjetivo, que dá conta da configuração complexa, frente aos fatos vividos. Vozes tecidas umas com outras permitiram transformá-la em uma história coletiva que contém em si a experiência corporificada nas mulheres e na associação; o que desafiava constantemente nossa capacidade de escuta, de observar e acolher a realidade cotidiana dessas mulheres, sem preconceitos e sem julgamentos.
Construir conhecimentos situados a partir e no cotidiano das mulheres da Associação de Mulheres Agricultoras foi compreender que o ato de narrar é em si um ato transformador, de construção individual e coletiva como sujeitas de uma história tecida por várias mãos.
As perspectivas teóricas das questões relacionadas a trabalho e gênero, trazidas pelas estudiosas da Divisão Sexual do Trabalho e da Economia Feminista ajudaram a enxergar nas narrativas das entrevistadas, padrões que continuam se repetindo, como a divisão desigual do trabalho doméstico e de cuidado e a sobrecarga de trabalho, que as impede de participar mais ativamente das atividades da associação, de se dedicarem ao cuidado de si a às atividades de lazer e descanso. Perspectivas que nos desafiam sobre a necessidade constante de desconstruir o conceito de trabalho para tornar visível a contribuição das mulheres rurais para a criação da riqueza nacional e da produção alimentar.
Os estudos sobre a Economia Solidária ajudaram a identificar importantes conquistas advindas da participação coletiva na associação: como o fortalecimento do protagonismo das mulheres com relação ao trabalho, o combate da invisibilidade do trabalho feminino, o ganho de autonomia e bem-estar pessoal e a conquista do lugar de fala. Pelas narrativas fica evidente que as mulheres têm consciência do seu trabalho, sabem do valor que ele tem e de sua capacidade de o realizarem. Mesmo quando a produção é realizada em parceria com seus maridos, é elas quem se sobressaem, pois é em seu nome que vem o dinheiro dos programas. Ter seu próprio dinheiro, ter conta bancária em seu nome, contribui sobremaneira para o alcance da autonomia. Acreditamos na importância desse passo para a conquista de reconhecimento e de condições mais igualitárias de trabalho, como defende Federici (2018).
É interessante constatar como as práticas da economia solidária e a união das mulheres em associação, ainda que exista muito a ser conquistado, conseguiram preencher o vácuo, que existia no Mercado, na forma de escoamento da produção das agricultoras. Essas práticas, especificamente a entrega dos produtos para os programas do PAA e do PNAE, promovem uma articulação com a esfera pública, contribuindo para a democratização da economia e evidenciando a importância do papel do Estado na promoção das políticas públicas que promovem a igualdade de gênero. As associadas já começaram a perceber a importância de sua participação nos debates e nas decisões do poder público, como a participação no Conselho de Administração Escolar. A consciência da dimensão política está começando a se formar na associação. A importância da dimensão social também é notada na partilha, e na ajuda mútua entre as mulheres e na sua preocupação com a comunidade as quais pertencem. A Associação se revelou um potencial espaço de partilha, de colaboração e de desenvolvimento da consciência cidadã.
Observamos como o patriarcado penaliza as mulheres e impede que as questões de gênero se afirmem como proposta de mudanças radicalmente democráticas. Fica a pergunta: como nos posicionar diante dessa realidade, se dentro das associações de economia solidária não lidamos com clareza com as questões históricas trazidas pelo feminismo? No entanto, a associação como construção coletiva é uma porta que se abre como prática de liberdade. Se o patriarcado se reinventa permanentemente, nossos deslocamentos feministas também precisam ser permanentes e cada vez mais criativos.
Por fim, é necessário salientar que a metodologia escolhida exige passar muito tempo no campo, acompanhando em tempo real o dia a dia dos agricultores e da associação, condições que a Pandemia da Covid-19 fraturou num antes e depois, com o impacto deixado na vida material e na subjetividade; com isso queremos dizer que cada investigação é filha de um tempo e dos limites impostos pelo contexto.
Por outra parte ficam janelas abertas para pesquisas futuras como é um análises aprofundado da heterogeneidade dentro do grupo, a inserção de uma perspectiva interseccional, o as tensões entre os processos de fortalecimento da Associação de Mulheres Agricultoras e a capilaridade que tem a cultura patriarcal em todas a estrutura social do município.
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1 Importa notar que a idade mínima para trabalhar no Brasil é de 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir dos 14 anos (art. 7º, XXXIII da Constituição Federal de 1988).
2 Neste artigo adota-se o entendimento de que a economia solidária é estratégia de enfrentamento à exclusão social e alternativa às práticas da economia capitalista por fomentar novas formas de viver e de experienciar a vida. Com efeito, afasta-se o entendimento de que a economia solidária atue apenas como elemento operacional do próprio sistema capitalista sobre o lumpesinato.
3 Gênero é aqui entendido como as marcas de subordinação inscritas em nossos corpos que se cruzam com outras variáveis qualificadoras da desigualdade.
4 A expressão ‘panhar’ café é utilizada de forma coloquial e significa realizar a colheita do grão.
5 Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural.
6 Programa de Aquisição de Alimentos.
7 Programa Nacional de Alimentação Escolar.