CÓMO CITAR ESTE ARTÍCULO: Mello Fernandes, V. y Almeida dos Santos. I. (2025). Resistência associativas de mulheres: a experiência binacional do Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento. Otra Economía, 18(34), 47-63.
Victória Mello Fernandes
mellofvictoria@gmail.com
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
Brasil
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8294-6128
Isabella Almeida dos Santos
isabellastef@gmail.com
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
Brasil
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5179-6529
Recibido: 21/03/2024 - Aceptado: 23/10/2025
Resumo: O presente artigo investigou o Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento, com o objetivo de entender sua origem, organização, práticas de trueques e os impactos da forma econômica não hegemônica para as mulheres de Rivera (Uruguai) e Santana do Livramento (Brasil). As bases teórico-metodológicas são qualitativas com alcance descritivo, a partir do estudo de caso (Yin, 2001) e coleta de dados por entrevistas semi estruturadas. A partir da perspectiva do pós-desenvolvimento, temos como hipótese que o grupo se organiza de forma independente, com o propósito de fortalecer as relações de cooperação entre as mulheres participantes, criando redes relacionais de apoio econômico e social em contraposição às formas de mercado e às relações trabalhistas do capitalismo. As análises preliminares apontam que o Grupo é uma proposta de associativismo autogestionado por mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente durante a pandemia. Isso expõe as fragilidades sujeitos subalternizados pela colonialidade a partir de marcadores como gênero, raça e classe, dentro do sistema socioeconômico moderno colonial capitalista. Identificaram-se transformações nas formas de associativismo para além do período da pandemia. O grupo ainda se articula como uma economia de trueques, mas também de apoio social, político e jurídico entre mulheres dos dois lados da fronteira.
Palavras-chave: economia solidária feminista, autogestão, pandemia.
Resumen: La presente investigación tiene como objetivo investigar el Grupo de Economía Solidaria Feminista Riveramento, con el propósito de comprender su origen, organización, prácticas de trueque y los impactos de su modelo económico no hegemónico en las mujeres de Rivera (Uruguay) y Santana do Livramento (Brasil). Las bases teóricas y metodológicas son cualitativas con un enfoque descriptivo, utilizando un estudio de caso (Yin, 2001) y la recopilación de datos a través de entrevistas semiestructuradas. Desde una perspectiva de posdesarrollo, la hipótesis planteada es que el grupo opera de manera independiente con el propósito de fortalecer la cooperación entre las mujeres participantes, estableciendo redes relacionales de apoyo económico y social en oposición a las formas de mercado y las relaciones laborales capitalistas. Los análisis preliminares indican que el Grupo representa una propuesta de asociativismo autogestionado por mujeres en situación de vulnerabilidad, especialmente durante la pandemia. Esto expone las vulnerabilidades de individuos subalternizados por la colonialidad en base a marcadores como género, raza y clase dentro del sistema socioeconómico moderno colonial capitalista. Se han identificado transformaciones en las formas de asociativismo más allá del período de la pandemia. El grupo continúa operando como una economía de trueque, pero también como un sistema de apoyo social, político y legal entre mujeres de ambos lados de la frontera.
Palabras clave: economía solidaria feminista, autogestión, pandemia.
Abstract: The present research aims to investigate the Feminist Solidarity Economy Group Riveramento, with the objective of understanding its origin, organization, barter practices, and the impacts of its non-hegemonic economic model on women in Rivera (Uruguay) and Santana do Livramento (Brazil). The theoretical and methodological foundations are qualitative with a descriptive scope, based on a case study approach (Yin, 2001) and data collection through semi-structured interviews. From a post-development perspective, it is hypothesized that the group operates independently with the purpose of strengthening cooperation among participating women, establishing relational networks of economic and social support in opposition to market forms and capitalist labor relations. Preliminary analyses indicate that the group represents a self-managed association proposal for vulnerable women, especially during the pandemic. This exposes the vulnerabilities of individuals subalternized by coloniality due to markers such as gender, race, and class within the modern colonial capitalist socio-economic system. Furthermore, transformations in association forms have been identified beyond the pandemic period. The group continues to operate as a barter economy but also as a system of social, political, and legal support among women on both sides of the border.
Keywords: feminist solidarity economy, self-management, pandemic.
O presente trabalho é resultado de uma investigação qualitativa com alcance descritivo, que ocorreu entre 2021 e 2022 com participantes do Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento, através do contato virtual e presencial, atrelado às possibilidades da realização da pesquisa e das flexibilizações das medidas sanitárias em ambos países, Brasil e Uruguai. Localizado na fronteira seca2, o grupo estabeleceu um vínculo binacional entre as divisões simbólicas dos países, especialmente, entre as mulheres que vivem nesse espaço-tempo e nas experiências historicamente compartilhadas.
Em 2020, quando a pandemia da Covid-193 se instalou no Brasil, milhões de pessoas foram afetadas de diferentes formas. Ninguém estava preparado para uma crise sanitária, e humanitária dessas proporções, o que foi agravado com as formas de condução política e econômica do país, gerando uma agudização do sofrimento em múltiplas esferas da vida. Não somente ao longo do ano de 2020, mas ao longo dos últimos três anos, em razão da crise sanitária, humanitária e econômica, os sujeitos tiveram que se organizar de diferentes formas para garantir sua sobrevivência.
Nessa crise, que pode ser compreendida como uma crise do capitalismo e da modernidade-colonialidade, em razão das proposições e dos impactos nos e para os sujeitos, percebe-se que os mais atingidos na América Latina e no Brasil “são aqueles subalternizados historicamente desde o processo de colonização: negros, indígenas e mulheres” (Mello Fernandes e Almeida dos Santos, 2022). Nesse sentido, são esses sujeitos que se viram obrigados a reconstruir e reinventar estratégias que propiciassem condições materiais para a vida em seus diferentes aspectos.
Por meio dessa crise de múltiplas dimensões da realidade social, conhecemos um grupo de mulheres que se organizou de forma autogestionada para diminuir os impactos sociais, econômicos e culturais da pandemia em suas vidas. Como historicamente os sujeitos subalternizados por padrões coloniais de poder resistiram, o Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento organizou-se no final de 2019; entretanto, em 2020, quando a crise sanitária e socio-econômica acentuou as dificuldades já existentes, consolidou-se enquanto um grupo com estratégias e ações organizadas para garantir a segurança, autonomia e solidariedade entre as mulheres da região.
A investigação buscou abordar a relevância e a necessidade de pensar em alternativas ao modelo econômico capitalista, às investidas do patriarcado e de um sistema-mundo moderno colonial, a partir de organizações de mulheres cis, trans, negras, indígenas e brancas, as quais buscam estabelecer outras e novas formas da produção da vida e de resistência, como historicamente já existem. Tais formas de economia popular, solidária, feminista e decolonial podem ser compreendidas como uma prática encarnada (Cusicanqui, 2010), que devem ser foco de nossa atenção, para compreender as heterogeneidades estruturais latino-americanas e a ação e mobilização dos sujeitos.
Ainda que a constituição do grupo tenha se consolidado durante a pandemia da COVID-19, sua importância ultrapassa esse contexto emergencial. A experiência do Riveramento aponta para uma forma contínua de enfrentamento à precariedade econômica, à exclusão social e às múltiplas violências estruturais enfrentadas pelas mulheres na região de fronteira. Mais do que uma resposta à crise sanitária, o grupo se afirma como um arranjo de economia popular feminista que coloca no centro da sua organização a produção e reprodução da vida — não apenas a sobrevivência, mas formas dignas e autônomas de viver. Esses arranjos não se limitam à geração de renda ou acesso a bens; são práticas que fortalecem vínculos comunitários, saberes compartilhados, cuidados mútuos e autonomia política. Ao se constituírem fora da lógica da acumulação e da competitividade, desafiam os imperativos do mercado e da masculinização da economia, ao mesmo tempo em que visibilizam formas outras de organizar o cotidiano a partir da reciprocidade, do cuidado e da solidariedade entre mulheres. Assim, o grupo representa uma alternativa concreta e cotidiana que questiona as estruturas capitalistas e patriarcais, oferecendo pistas valiosas para pensar a sustentabilidade das redes de apoio femininas e práticas econômicas solidárias em períodos de “normalidade” aparente, nos quais a desigualdade e a violência permanecem naturalizadas.
A investigação do Grupo de Economia Solidária Feminista se justifica pela urgência de compreender e valorizar experiências concretas de organização coletiva que confrontam as desigualdades estruturais de gênero, raça e classe em contextos de fronteira. Trata-se de um grupo que articula dimensões econômicas, políticas e afetivas em práticas cotidianas de resistência e cuidado, configurando uma experiência situada de economia popular feminista. Estudar o Riveramento permite visibilizar modos de vida e de produção que não apenas escapam à lógica capitalista, mas a questionam frontalmente, propondo outras formas de existência sustentadas por redes de solidariedade, trocas não monetárias, autogestão e partilha de saberes. Além disso, a pesquisa contribui para o campo dos estudos sobre economia solidária, feminismos interseccionais e alternativas pós-capitalistas, ao mesmo tempo em que reconhece e fortalece epistemologias produzidas desde o Sul Global e pelas próprias mulheres envolvidas, em seus processos de criação, resistência e reinvenção do cotidiano.
A pesquisa teve como objetivo investigar o Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento, com o intuito de analisar o seu processo de surgimento, as relações estabelecidas entre as mulheres para a consolidação e organização do grupo, bem como seus escopos.
Dessa forma, os objetivos específicos foram:
1. Examinar os fenômenos e as condições sociais que favoreceram o surgimento do grupo;
2. Analisar as formas de organização do Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento;
3. Investigar a consolidação da forma relacional dos trueques;
4. Examinar os impactos do grupo nas vidas das mulheres integrantes.
A pesquisa apresenta a sua relevância através da necessidade de mapeamento de construções de alternativas ao modelo econômico capitalista, que não só explora o meio ambiente e impacta negativamente nas vidas de todos os seres que vivem no planeta, mas também explora os sujeitos, suas forças de trabalho, seus espaços-tempo e mercantiliza as relações. O Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento propõe-se como uma das alternativas iniciadas por mulheres que sentiram suas vidas vulnerabilizadas em um momento crítico da pandemia, dessa forma expondo as fragilidades de alguns sujeitos – subalternizados pela colonialidade a partir de classificações sociais e marcadores como gênero, raça e classe, dentro do sistema socioeconômico capitalista.
A presente pesquisa, de natureza qualitativa e abordagem descritiva, tem como objetivo analisar e compreender as dinâmicas do Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento, atentando para a composição do grupo, suas formas de organização, estratégias de produção e comercialização, e sobretudo os sentidos atribuídos pelas próprias integrantes às práticas que sustentam sua existência coletiva. A investigação se ancora em uma perspectiva epistemológica que compreende o conhecimento como situado, relacional e comprometido com a escuta e com a produção de saberes desde as margens. Inspirada nas contribuições de Denzin e Lincoln (2005, apud Flick, 2009), entende-se a pesquisa qualitativa como um conjunto de práticas interpretativas e materiais que não apenas buscam descrever fenômenos sociais, mas que se propõem a produzir mundos possíveis ao tornar visíveis formas de vida e racionalidades econômicas historicamente invisibilizadas.
Nesse sentido, a escuta das mulheres do Riveramento não se restringe à coleta de dados, mas constitui uma experiência de interlocução ética que permite acessar sentidos, trajetórias e marcas vividas que atravessam os fazeres cotidianos do grupo. A metodologia das entrevistas semiestruturadas, inspirada em Duarte (2004), busca justamente abrir espaço para a emergência de discursos que não estejam totalmente enquadrados em categorias pré-definidas, mas que possam ser provocados e acolhidos em sua complexidade: desde as memórias de violência e abandono, até os gestos de cuidado e resistência entre mulheres que encontraram no grupo uma forma de reconstruir vínculos e redes de apoio. Em uma das entrevistas, por exemplo, uma integrante afirma: “a gente se junta pra costurar, mas na real é pra não se perder no mundo” – evidenciando que os encontros do grupo ultrapassam a dimensão econômica para inscrever-se no campo da produção de vida.
Trata-se, portanto, de um estudo de caso que, conforme propõe Fonseca (1999), permite explorar não apenas os contornos individuais das trajetórias das participantes, mas sobretudo os entrelaçamentos entre subjetividades e contextos sociais que estruturam práticas coletivas de organização popular. O caso do Riveramento não é apenas um “caso”, mas uma entrada analítica potente para compreender como mulheres em situação de vulnerabilidade constroem formas de pertencimento e de autonomia material e simbólica, por vezes em confronto com os modelos tradicionais da economia solidária. A pesquisa assume, assim, um compromisso político e epistemológico com a valorização de saberes insurgentes e com a ampliação das fronteiras da própria ideia de “trabalho”, revelando que as experiências de organização coletiva das mulheres populares envolvem dimensões simbólicas, afetivas e éticas que desafiam a cisão moderna entre produção e reprodução, razão e emoção, política e cuidado.
A aproximação inicial com o Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento se deu por meio das redes sociais digitais, espaços que têm se constituído como territórios de visibilidade e articulação política de coletivos autogestionados. A partir de um mapeamento prévio dos conteúdos produzidos pelo grupo em plataformas como Facebook, Instagram e YouTube, buscamos compreender suas proposições iniciais, práticas de troca e comunicação, além da estética e da narrativa que as próprias integrantes constroem sobre sua atuação. Essa etapa exploratória virtual possibilitou não apenas uma aproximação com o discurso público do grupo, mas também com suas formas de expressão política, criatividade e modos de resistência que se articulam a partir da linguagem digital.
O primeiro contato direto foi estabelecido por meio de uma reunião virtual com algumas das integrantes, momento em que emergiu o convite para que a pesquisadora integrasse o grupo de WhatsApp que sustenta as trocas cotidianas, a organização dos trueques (trocas solidárias), os afetos e os conflitos que atravessam a construção coletiva. Esse gesto de abertura — generoso, mas também político — evidenciou o caráter relacional da pesquisa, permitindo a inserção em um campo etnográfico expandido, que mescla dimensões presenciais e virtuais, e no qual a pesquisadora não se posiciona como mera observadora externa, mas se compromete com os modos de existência compartilhados. O grupo de WhatsApp, nesse sentido, operou como um espaço de observação participante, onde circulam narrativas íntimas, estratégias de sobrevivência, memes, indignações, cuidados, necessidades e formas concretas de reorganizar a vida em comum.
Na sequência, foi construído um roteiro de entrevista semiestruturado, orientado por questões centrais da pesquisa, mas aberto à escuta das experiências singulares e coletivas das participantes. As entrevistas, gravadas e sistematizadas posteriormente, foram mais do que momentos formais de coleta de dados: constituíram espaços de criação de confiança e de enunciação de saberes encarnados, muitas vezes silenciados nos registros formais da economia ou da política institucional. A escuta atenta às narrativas das interlocutoras revelou dimensões afetivas, históricas e subjetivas de suas trajetórias, marcadas por rupturas e reinvenções. Uma das participantes, por exemplo, narrou como as trocas do grupo lhe “ensinaram a pedir sem culpa, e a oferecer com o que eu tenho, mesmo que pareça pouco”. Essa fala expressa uma ética da reciprocidade que escapa às lógicas mercantis tradicionais, e que funda a potência política do grupo.
A presença da pesquisadora no território, o compartilhamento de referências culturais e o engajamento nas atividades do grupo — como feiras, encontros e trocas — permitiram o aprofundamento da escuta e a construção de uma relação horizontal, marcada pela confiança mútua. A metodologia, portanto, foi pensada como processo de co-construção, baseada em uma ética do cuidado e da implicação. Inspirada nas epistemologias feministas e decoloniais, a pesquisa recusou a extração de dados como prática técnica e se afirmou como gesto político de produção compartilhada de sentidos sobre economia, feminismo e modos de sustentar a vida.
Do ponto de vista teórico, a investigação se ancora na perspectiva do pós-desenvolvimento, compreendendo que o grupo Riveramento se organiza de forma autônoma, a partir das experiências concretas de mulheres periféricas que se colocam em movimento para garantir sua sobrevivência material e simbólica, em um contexto de abandono estatal e violência estrutural. Ainda que emergente de um cenário capitalista e urbano, o grupo se contrapõe, em sua forma de existir, aos princípios hierárquicos e competitivos do mercado. Como prática contra-hegemônica, o Riveramento reconfigura o que entendemos por “trabalho”, “produção” e “valor”, ao inserir o cuidado, o afeto e a solidariedade como elementos centrais da organização econômica. O grupo emerge, em parte, como resposta às múltiplas vulnerabilidades acentuadas pela pandemia de COVID-19 — como o desemprego, a fome, a violência de gênero —, mas sua potência extrapola o contexto emergencial, instaurando uma práxis de reorganização da vida sob outros princípios, ancorados nas pedagogias do cotidiano e na ancestralidade das mulheres populares.
Aqui, compreendemos também o desenvolvimento solidário um processo de fomento de novas forças produtivas e de instauração de novas relações de produção, de modo a promover um processo sustentável de crescimento econômico que preserve a natureza e redistribua os frutos do crescimento a favor dos que se encontram marginalizados da produção social e da fruição de seus resultados (Singer, 2005). As alternativas econômicas solidárias podem ser compreendidas como uma organização social, cultural e econômica que busca a articulação entre formas produtivas não hegemônicas e anticapitalistas. Essas alternativas se baseiam no conhecimento do processo, na disposição de saberes e na formação contínua ao longo da vida, como parte da reprodução ampliada da vida em contraposição ao capital (Tiriba, 2018).
A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Educação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no contexto do Projeto de Pesquisa Produzindo a cultura do trabalho associado: saberes em (trans)formação na economia popular e solidária, coordenado pela Profa. Dra. Maria Clara Bueno Fischer. O projeto está vinculado ao campo de estudos sobre economia solidária, educação e trabalho, e tem como foco as práticas e os saberes produzidos em experiências coletivas de resistência ao modelo econômico hegemônico. As autoras do artigo integram iniciativas de pesquisa e extensão que articulam saberes acadêmicos e populares, com ênfase na organização coletiva de mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Essa inserção institucional foi fundamental para viabilizar o acesso ao campo, estabelecer relações de confiança e garantir uma escuta ética e comprometida com as experiências das participantes, reconhecendo a dimensão afetiva e política que atravessa o fazer investigativo.
Nessa seção, apresentamos as principais discussões e resultados decorrentes da pesquisa conduzida no ano de 2022. Para isso, a partir de uma abordagem qualitativa descritiva, descrevemos a forma como a pesquisa foi construída, as circulações necessárias para realizá-la, os contatos estabelecidos, as estruturas da interação com as interlocutoras e, por fim, os resultados das entrevistas.
Durante o período de realização da pesquisa, o Brasil e o Uruguai ainda se encontravam com restrições na circulação de pessoas e com medidas sanitárias obrigatórias, como o uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento social. Como as pesquisadoras residem em Porto Alegre - RS, foi necessário o deslocamento até a região para a realização do estudo. Em razão disso, apenas uma das pesquisadoras foi a campo, por ser natural da cidade e ter local para estadia pelo período necessário. Vale destacar que esse período também houve um aprofundamento nos casos de Covid-19 e no número de mortes em razão da doença4 e da crise da modernidade e do capitalismo, especialmente no Sul do globo.
Esse período de crise aprofundou as desigualdades já existentes, especialmente daquelas e daqueles mais afetados por um sistema moderno colonial capitalista, como mulheres, negros e indígenas, por exemplo. Ao mesmo tempo, as estratégias de sobrevivência e resistência ao sistema socioeconômico se mostram contínuas, no sentido de sempre haver alternativas populares baseadas nas experiências e nas necessidades materiais e imateriais dos sujeitos. Conforme Harvey (2016) aponta, nos momentos de crise do sistema-mundo (Quijano e Wallerstein, 1992) também são momentos de confrontação e remodelação do paradigma, ainda que em experiências localizadas.
As entrevistas foram realizadas entre janeiro e fevereiro de 2022, na cidade de Rivera - URU, fronteira com Santana do Livramento - BRA. Através do contato por telefone com as integrantes do Grupo, marcamos os horários e o local onde poderíamos conversar. Assim, decidimos realizá-las na sede do grupo, que está localizada na Calle Brasil, da cidade de Rivera.
Em virtude de as cidades não serem divididas por corpos d’água, a circulação dos moradores entre elas é frequente. A ausência de rios e lagos possibilita que os deslocamentos ocorram sem dificuldades, podendo o percurso ser realizado a pé. Por essa razão, a pesquisadora, que estava alocada próxima às ruas principais de Rivera, optou por caminhar até a estação de ônibus uruguaia e, a partir dali pegar um táxi até a sede do grupo. Em questão de minutos, ela chegava à sede, e essa prática se repetiu ao longo dos seis encontros.
O primeiro encontro foi realizado com o propósito de apresentar a pesquisadora e os objetivos da pesquisa. Além disso, buscou-se contextualizar a trajetória da pesquisadora, cidadã natural da fronteira, como uma forma de localizar o interesse da pesquisa dentro da experiência compartilhada de ser daquele espaço-tempo. Nesse momento, apenas a interlocutora “A” estava presente, já que era uma das principais articuladoras do grupo, para compreender como seriam organizados os próximos encontros.
Nesse encontro, pudemos alinhar como seriam realizadas as entrevistas e quais seriam as integrantes que poderiam participar da pesquisa. Também ficou decidido que seriam realizadas naquele espaço, pois já havia familiaridade e seria de melhor acesso às mulheres - condicionado do tempo e ao dinheiro que seria gasto para deslocamento delas. Assim, firmamos os encontros uma vez por semana, durante um mês com a duração média de uma hora. A primeira entrevistada A, conhecida como uma das principais articuladoras do grupo, contatou as outras que estavam disponíveis para participar e enviou os contatos para que a pesquisadora melhor articular os encontros.
O primeiro eixo da entrevista teve como escopo compreender quem eram os sujeitos da pesquisa, a partir de características de autoidentificação racial, faixa etária, escolarização, profissão/ocupação, origem e nacionalidade. Junto a isso, buscamos compreender como cada uma das mulheres viveu a experiência da Covid-19, especialmente por meio dos impactos da pandemia nas suas vidas profissionais, nas sociabilidades, nas situações econômicas e impossibilidades de circulação material e simbólica.
A pesquisa contou com quatro interlocutoras, aqui nomeadas como A; B; C; D. Todas as mulheres são moradoras da região da fronteira e integram ativamente o Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento. Em todas as entrevistas, as perguntas iniciais foram as mesmas, alterando-se e aprofundando-se a partir dos que era trazido pelas interlocutoras. Durante a conversa, foi solicitado a elas que se apresentassem, compartilhando idade, identificação étnico-racial, experiências de trabalho e como a pandemia impactou suas vidas, as relações sociais e de trabalho.
Entrevistada A, de 49 anos, é natural de Porto Alegre e identificou-se como uma mulher branca. A sua renda era composta por diferentes trabalhos, tais como freelancer de tradução, auriculoterapia e atuações esporádicas como atriz. A pandemia trouxe consideráveis desafios para A., ela relata que durante três meses enfrentou a falta total de trabalho. Além dos aspectos profissionais, a falta das interações sociais e da expressão artística foi algo difícil de enfrentar durante o período pandêmico. Sua renda foi fortemente impactada com o isolamento, especialmente porque as sessões de auriculoterapia requerem contato físico, o que impossibilitou o exercício dessa atividade durante o período de distanciamento social.
Nesse contexto de pandemia, após se separar de outro coletivo no qual participativa, A. e outras mulheres se reuniram para discutir sobre economia solidária, focando na militância feminista e no engajamento ativista. O objetivo central do grupo de economia solidária feminista Riveramento é fomentar o consumo de produtos, serviços e saberes entre as mulheres, fortalecendo tanto a economia quanto as pautas feministas.
O grupo atua como um ponto de apoio para as mulheres da região, oferecendo assistência social, emocional e jurídica para aquelas que estão enfrentando dificuldades, seja alimentar ou de violência doméstica, a fim de promover uma rede de apoio e solidariedade. As mulheres utilizam o trueque como conceito-chave para valorizar aquilo que produzem, fortalecendo a economia das mulheres envolvidas, priorizando sempre a troca de produtos e serviços em vez de dinheiro.
Para A., o impacto do grupo de economia solidária na sua vida foi extremamente significativo. Relata que, devido à falta de renda, aprendeu a fazer pão e tortas integrais para trocar com outras participantes do grupo por roupas, sapatos e até brigadeiros, por exemplo.
Entrevistada B., natural de São Paulo, identificou-se como uma mulher branca. Durante a entrevista, contou que por atuar como trabalhadora sexual, sua renda foi drasticamente afetada durante a pandemia, dificultando o pagamento de aluguel, água e luz. B. ingressou no grupo após a criação, e desde então, tem desempenhado o papel de tesoureira do Riveramento. Apesar de ter mencionado que nunca participou diretamente dos trueques, B. diz reconhecer o valor e importância dessa forma de sistema econômico. Para ela, o fato de que uma mulher pode oferecer algo que outra necessita, sem depender de dinheiro, é algo que merece valorização. A atuação do grupo, como mencionado, vai além das questões econômicas, este tem um papel essencial no apoio emocional e solidário. Um dos momentos mais gratificantes, segundo B., foi conhecer mulheres excepcionais no grupo, que compartilham experiências semelhantes às suas. A troca de vivências, a abertura para o diálogo e o apoio mútuo são fundamentais em sua vida.
Entrevistada C., identificou-se como uma mulher branca, reside em Santana do Livramento. Ela faz parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e atua como professora no assentamento em que mora. C. destaca as adaptações que o grupo do MST precisou enfrentar para sobreviver durante a pandemia. Enquanto antes a feira presencial era o principal foco, a crise sanitária levou a um aumento nas encomendas e entregas de produtos, alterando a dinâmica do grupo.
A troca e a rede de apoio são elementos indispensáveis para o grupo, diz C. Ela destaca que o conceito de trueques, que pensa além da utilização do dinheiro, é fundamental para a comunidade, proporcionando independência e fortalecendo as relações de apoio e colaboração entre as mulheres. Embora a pandemia tenha causado mudanças importantes no funcionamento do grupo, C. acredita que este já seja consolidado e continuará a existir, independentemente das circunstâncias.
Entrevistada D., de 58 anos, é Uruguaia e identifica-se como uma mulher afrodescendente. Trabalhava como enfermeira na ala psiquiátrica antes da pandemia, mas durante esse período a ala foi transformada em um espaço para receber pacientes com COVID-19. A participante relata que a queda na demanda de trabalho e o fechamento de comércios afetaram sua renda. Conforme menciona D., a promoção de trueques, trocas de serviços, conhecimentos, mercadorias, livros, artesanatos, fomenta a solidariedade entre as mulheres, bem como o debate sobre os aspectos econômicos a auxiliaram a modificar sua perspectiva de consumo, reduzindo gastos durante a pandemia e realizando trocas de alimentos com mulheres do grupo. A luta por direitos, espaços e autonomia para as mulheres está no cerne das atividades do coletivo. E, quando indagadas sobre o futuro do grupo após a pandemia, todas afirmaram que o grupo se fortaleceu durante esse período, mas que continuará a crescer e se desenvolver.
O segundo eixo da entrevista foi composto por questões sobre o contexto e a criação do grupo de economia solidária, para a compreensão das condições que impulsionam e possibilitaram a emergência da iniciativa. Nesse sentido, buscamos compreender quais são as condições materiais e imateriais que influenciam na necessidade de buscar uma “economia outra” atrelada a reprodução ampliada da vida e das relações sociais de mulheres sócio-economicamente marginalizadas por um sistema moderno capitalista. Como Tiriba (2018) sugere, buscamos analisar a partir de “referências empíricas [que] são espaços/tempos em que um grupo social, uma comunidade, ou mesmo uma sociedade inteira insiste em afirmar modos de vida distintos de os do capital” (p. 75).
Ao deslocarmos nosso olhar para tais propostas “outras”, percebe-se que, mesmo no sistema hegemônico/dominante, cada vez mais escancarado, uma perspectiva global de desenvolvimento capitalista se delineia. Essa perspectiva não existe sem o tensionamento por múltiplas agências, uma vez que desde o início da modernidade e do sistema capitalista de acumulação formas existentes e resistentes entraram em disputas e confrontos, ao passo que demonstram que o curso da existência e da vida social não é único, nem está predestinado a um final único (Quijano, 2014). São possibilidades que sempre estiveram em disputa, constituindo a heterogeneidade histórico-estrutural do poder na América Latina.
Segundo as interlocutoras, o grupo teve sua origem em dezembro de 2019, “por um pequeno grupo de mulheres dissidentes da coletiva feminista da fronteira” (entrevista A). A partir de um grupo de movimento social já consolidado de mulheres das duas cidades, algumas mulheres em desacordo com algumas pautas propuseram a criação de um novo grupo, também voltado para a dimensão econômica, que era uma das fragilidades das integrantes.
No momento da criação, o grupo ainda não tinha seus objetivos estabelecidos, entretanto, sabiam que o ponto de partida seria a militância feminista. Segundo as interlocutoras A e B, foi nesse período de crise que se começou a discutir a necessidade do que chamaram de economia solidária - uma outra relação econômica e forma de acesso a bens e serviços que não utilizasse necessariamente o dinheiro e que estimulasse a independência das mulheres através da economia. Há nesse sentido a articulação em torno de uma “economia popular”, que:
Mesmo permanecendo no mercado (assalariado) de trabalho, uma grande parcela da classe trabalhadora desenvolve, de forma subordinada à economia capitalista, outras práticas econômicas sociais calcadas nos valores de comensalidade, reciprocidade e cooperação para tentar melhorar a qualidade de vida (Tiriba, 2018, p.77).
Em março, quando a pandemia foi decretada no Brasil, uma das integrantes do grupo fez uma publicação no Facebook incentivando o trueque, conta a interlocutora A. Essa integrante colocou uma mensagem em que afirmava e fazia um “chamamento”: “se vai faltar efetivo, dinheiro, vamos partir para el trueque”. A partir dessa publicação, a interlocutora A se interessou e começou a encorajar o trueque. Em seguida, o grupo publicou na mesma rede social uma mensagem chamando novas mulheres a participar do grupo, e “aí começou a crescer, um crescimento geométrico (março e abril de 2020). Era muito participativo até o final do ano de 2020” (Interlocutora A).
Acerca da definição do trueque em espanhol, a interlocutora A. explica que a maioria das participantes são uruguaias. Isso está relacionado à história recente do país, segundo A., nos anos 90 e 2000, o Uruguai teve uma depressão econômica muito grande, por ser um
país dolarizado e as pessoas terem recebido incentivo governamental para pegar empréstimos em dólares, investir em lojas e máquinas e equipamentos em dólares. Em um determinado momento o dólar subiu, mas as pessoas continuavam a receber em pesos. Conta a interlocutora, “quando isso aconteceu nos dias seguintes teve uma onda de suicídios imensa, as pessoas começaram a perder o que tinham – perder casas. Os bancos ficavam com casas, lojas, máquinas. Os bancos enriqueceram. E as pessoas começaram a fazer trueque, feiras de trueque. A palavra trueque remonta esse período” (Interlocutora A).
A interlocutora B. não fez parte do momento de criação, mas começou a participar no final do ano de 2020. Ela conta que entrou com o objetivo de conseguir ajuda para ela e para as companheiras do coletivo de trabalhadoras sexuais uruguaias. Junto a isso, achou importante o movimento realizado a partir dos trueques, e quis ajudar na construção do grupo. Ela apontou que as trabalhadoras sexuais têm potencialidade em contribuir para a construção da alternativa econômica solidária feminista, a partir de suas experiências como sujeitos, mães, chefes de família, trabalhadoras (Interlocutora B). Como forma de tensionar o preconceito contra as trabalhadoras sexuais, estabelecer diálogo entre os coletivos, e contribuir para o grupo, as integrantes do coletivo de trabalhadoras sexuais ingressou no Grupo de Economia Solidária Feminista. A partir disso, foram realizadas atividades formativas, palestras, cruzando os temas específicos dos sujeitos e o tema e objetivo mais amplo do grupo.
A entrevistada C. esteve presente desde a criação do Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento. Para a interlocutora C., o grupo nasceu como um facilitador da economia entre as mulheres, da emancipação das mulheres e “um lugar em que as mulheres pudessem falar, como uma rede de apoio” (Interlocutora C). Já sobre o trueque, considera como uma forma de resgate, muito presente no passado, de incentivo a uma “economia solidarizada”:
A economia solidária vai desconstruir o conceito formado no sistema do capital, de que trabalho se reduz somente a emprego, para trabalho humano como “ser, saber, criar e fazer [...] toda ação transformadora do mundo da natureza em mundo humano.” Este novo conceito, implica em uma emancipação do trabalho em relação à prisão do trabalho assalariado, das capacidades de cada sujeito, da partilha coletiva, da não exploração e priorizando sempre as relações harmônicas entre si e com o meio ambiente. (Arruda, 2005, p. 34).
O grupo do WhatsApp é um dos meios de materialização dessa economia, segundo C., serve como um veículo de divulgação dos alimentos e produtos produzidos pelo MST, do qual a interlocutora C. é militante e assentada na cidade de Santana do Livramento. A partir dele, as mulheres do grupo puderam realizar compras coletivas de produtos orgânicos e naturais produzidos no assentamento, para além da realização das feiras.
A interlocutora D. não estava desde o início, foi a partir de sua nora que era integrante que conheceu o grupo. Para ela, o grupo busca fortalecer o debate feminista, confrontar o patriarcado, atuar como rede de apoios para mulheres vítimas de violência e, especialmente, fortalecer o trueque – trocar artesanatos, produtos e serviços. Ela aponta que há uma grande troca entre as mulheres, especialmente por haver diferentes nacionalidades - brasileiras, uruguaias, cubanas e venezuelanas, por exemplo.
A economia feminista, conforme Faria (2009), problematiza a invisibilidade e desvalorização do trabalho das mulheres, em especial o trabalho reprodutivo e comunitário. Ao integrar essa perspectiva, compreende-se que o grupo Riveramento articula práticas que vão além da geração de renda, atuando na produção e reprodução da vida cotidiana. Dialogando com Singer (2005), a solidariedade econômica aqui se entrelaça com os valores de cuidado, reciprocidade e justiça social que estruturam as economias do cotidiano feminino. Tiriba (2018) reforça essa abordagem ao argumentar que a reprodução ampliada da vida deve ser o centro de uma economia voltada ao bem viver, e não ao lucro.
As áreas de atuação do grupo não se restringem à economia tradicional hegemônica. Segundo todas as interlocutoras, as mulheres que entram no grupo deparam-se com o debate feminista, especialmente um feminismo interseccional, marcando que o grupo é composto apenas por mulheres – cis e trans – brancas, negras e indígenas. Dessa forma, o objetivo é fortalecer a economia entre mulheres e pautas feministas. O grupo funciona também como “instância de socorro” (Interlocutora A) ou rede de apoios entre mulheres (Interlocutoras B, C, D), o que apareceu em todas as entrevistas, exemplificado pelo caso recorrente de mulheres que precisam de apoio e ajuda para se protegerem de assédios, violências de gênero e domésticas, além de situações de insegurança alimentar.
Como alicerce transversal da atuação do grupo, o feminismo dá as bases de todas as atuações. Desde os trueques e até mesmo o consumo com dinheiro, como uma forma de economia para e entre mulheres; feiras solidárias com produtos de mulheres assentadas do MST; rede de apoios entre mulheres em situação de vulnerabilidade; debates feministas – direitos reprodutivos, direitos das trabalhadoras sexuais e autonomia das mulheres.
Já no último eixo das entrevistas, buscamos compreender os impactos da alternativa para a vida das mulheres que o integram, grupos de apoiadores, bem como os anseios e desafios presentes e futuros para o grupo. Em relação aos grupos e coletivos parceiros, as interlocutoras mencionaram o Coletivo Otras das trabalhadoras sexuais; El Paso e Entramadas, que oferece capacitação e apoio às mulheres em situação de violência; Mirabales, que também tem como escopo mulheres em situação de vulnerabilidade; o MST, a partir das feiras, dos produtos orgânicos e das compras coletivas; e a cooperativa Desacato, voltada à divulgação e comunicação.
Todas as entrevistadas apontaram que o grupo teve um significativo impacto em várias esferas de suas vidas. Desde a esfera econômica, marcada pela diminuição dos gastos por meio dos trueques e pelas compras coletivas. Essa dimensão teve efeitos expressivos na possibilidade de consumo de produtos aos quais não tinham acesso anteriormente, como brigadeiros no caso da entrevistada A. Além disso, pelo fato do grupo ter se organizado durante o período pandêmico, estabeleceu-se uma rede de sociabilidades, de trueques para além de produtos e serviços, mas de relações sociais entre as mulheres, as quais vão desde apoio financeiro, alimentício, psicológico e até o fortalecimento de autonomia e de relações de amizade entre as integrantes.
O grupo proporcionou oportunidades de aprendizados e aprofundamento sobre feminismos, direitos e lutas das trabalhadoras sexuais, alimentação saudável, conhecimento sobre plantas alimentícias não convencionais e novas formas de estabelecer relações culturais, econômicas, sociais e políticas através da fronteira. Essa abordagem se estende para além das brasileira e uruguaia, alcançando uma diversidade de nacionalidades.
No final do ano de 2021 e início de 2022, quando a pesquisa foi conduzida, o grupo passava por uma rearticulação, especialmente no WhatsApp, que era o principal meio de comunicação entre as integrantes. Isso se deveu ao fato de que algumas das mulheres que faziam parte do grupo começaram a utilizá-lo apenas como um espaço para venda de produtos.
Para confrontar isso, já que ia contra uma das principais características da alternativa solidária, as integrantes mais ativas, incluindo as interlocutoras da pesquisa, criaram um novo grupo afinado às bases da práxis da proposta inicial – economia solidária e feminista. Esse processo resultou em uma diminuição das integrantes, que haviam anteriormente chegado a mais de 200 mulheres. Isso impacta a organização das comissões, sendo diluídas e centralizadas em um “acolhimento” e uma geral para as outras demandas e proposições.
Essas questões de articulação, de coesão e de mobilização do grupo aparecem nas falas das entrevistadas como pontos centrais para pensar o alcance das práticas econômicas solidárias e da militância feminista. Os planos presentes [referentes ao ano de 2022] e futuros [atualmente] passam pelo engajamento das integrantes na construção cotidiana dessa alternativa anti e contra-hegemônica, que está muito além do consumo de produtos de bens e serviços. Ao mesmo tempo, mostram a importância das condições materiais para a sobrevivência em um sistema-mundo colonial moderno capitalista, não só nos momentos de crise, já que as situações de vulnerabilidade e marginalização socioeconômica não emergiram deslocalizadas e descorporalizadas, ou seja, as sujeitas e os sujeitos são sociohistoricamente conhecidos, assim como a coetaneidade da resistência.
O grupo Riveramento contribui para compreender como práticas de economia popular feminista — baseadas em vínculos afetivos, cuidado mútuo, reciprocidade e processos coletivos de decisão — reconfiguram as lógicas tradicionais de produção e circulação de saberes, de relações de trabalho e de reprodução da vida. Ao acompanhar os intercâmbios produtivos e cotidianos do grupo, torna-se possível identificar formas de organização que desafiam os pressupostos clássicos da economia solidária, muitas vezes ainda marcados por uma lógica produtivista, normativa e androcêntrica. As experiências das mulheres do Riveramento revelam que os processos de construção coletiva não se limitam à geração de renda, mas envolvem a produção de pertencimento, autoestima, saúde em sua integralidade, redes de apoio e reexistência diante da precariedade. A economia solidária, ao dialogar com os princípios da economia feminista, pode ampliar sua capacidade de promover justiça social e sustentabilidade, ao reconhecer as dimensões invisibilizadas do trabalho de cuidado, o papel das emoções e das relações no sustento da vida e a potência política das práticas populares forjadas por mulheres em contextos de vulnerabilidade. Trata-se de um valor diferencial que desafia modelos tradicionais e propõe alternativas baseadas em outras racionalidades econômicas e epistemológicas, enraizadas nas experiências concretas de resistência e invenção cotidiana.
O grupo Riveramento se fortaleceu em um contexto de crise sanitária e econômica global. A pandemia da Covid-19 evidenciou as relações de poder e dominação na modernidade-colonialidade, impactando a vida cotidiana das pessoas e afetando expressivamente os sujeitos subalternizados. Isso resultou em consequências não apenas para a saúde, mas também para a economia, denunciando as estruturas de exploração enfrentadas por uma parcela da população ao agravar as dificuldades vivenciadas por aqueles que lidam com a precarização do trabalho e a falta de políticas públicas e de assistência social.
Ao considerar a heterogeneidade estrutural para análise e práxis de transformação em direção a uma democratização radical, é imprescindível compreender a constituição de cada país, bem como de suas instituições, superando as limitações conceituais eurocentradas. Isso implica em compreender como os sujeitos são subalternizados pela colonialidade de poder, mas também como tensionam suas existências, direta e indiretamente, desde sempre, como Quijano (2014) analisa. Outras formas econômicas sempre coexistiram em relação ao modelo hegemônico. Muitas vezes, essas pequenas organizações estão relacionadas às necessidades materiais da vida, à existência do “polo marginal” — que podemos reconhecê-lo interseccionalmente — e fazem parte da história da sociedade moderna capitalista, enfatizando que as bases que sustentam esse sistema não se resumem apenas às relações salariais.
Nesse sentido, a economia solidária busca promover a solidariedade no campo econômico, destacando a cooperação entre os indivíduos como um processo sustentável para o crescimento econômico e a sobrevivência da população, estabelecendo novas forças produtivas e novas formas de produção (Singer, 2005). Diante disso, o grupo Riveramento colocou em prática o sistema de “trueques” como uma nova prática para a obtenção de produtos e alimentos, priorizando aqueles já existentes entre as mulheres do grupo, podendo ser trocados por outros itens necessários. Isso tira o foco da utilização da moeda local e da compra de novas mercadorias, que reproduz a lógica da produção desenfreada do capitalismo, sem considerar a preocupação com a sustentabilidade e o meio ambiente.
Essas relações de troca da economia solidária se fortalecem ao contrapor-se às formas de mercantilização e às relações trabalhistas do capitalismo, garantindo possibilidades de manutenção das diferentes esferas da vida, sobretudo para aqueles explorados pelo jogo econômico e subalternizados pela colonialidade, a partir do gênero, raça e classe.
À vista disso, a economia feminista desafia a dinâmica capitalista e patriarcal, contribuindo para a criação de espaços onde as mulheres tenham o poder de escolha, decisão, autonomia e controle dos processos econômicos. As participantes do grupo Riveramento demonstraram a necessidade dessa forma de associativismo autogestionado por mulheres de diferentes áreas e etnias ao atuar como um espaço cooperativo de segurança e garantias, seja jurídica, social ou alimentar, para mulheres em situação de vulnerabilidade que se viram ainda mais desamparadas no contexto pandêmico que enfrentamos entre os anos de 2020 a 2022.
O pensamento feminista é essencial nos debates sobre economia solidária, pois oferece um contraponto à teoria hegemônica do capital que explora e mantém na invisibilidade mulheres cis, trans, negras e indígenas. No contexto do Grupo de Economia Solidária Feminista Riveramento, no qual as participantes eram trabalhadoras precarizadas, desprovidas de garantias e estabilidade no momento de pandemia que vivenciamos. Ou seja, nesse sentido, a economia feminista se torna fundamental ao elucidar as complexidades em torno da divisão sexual do trabalho e a exclusão das mulheres do campo econômico (Faria, 2009).
A pandemia, que causou mudanças radicais nas relações sociais e de trabalho, expôs ainda mais a falta de renda e segurança das participantes do grupo, apontando como esse momento da pandemia maximizou as desigualdades e precariedade de suas vidas. Muitas mulheres se viram obrigadas a continuar realizando trabalhos domésticos como estratégia de sobrevivência, como produzir tortas para participar das trocas de mercadorias. Apesar da evidente sustentabilidade que é a prática dos “trueques” como uma alternativa econômica, no caso das mulheres, também é importante observar o papel da ampliação da esfera privada como um meio de assegurar sua subsistência também em tempos de crise.
As entrevistas e o estudo de campo buscaram, a partir de uma abordagem feminista, fazer a análise sobre as formas como as mulheres do grupo Riveramento são afetadas pelas crises sanitárias e dinâmicas econômicas, e como as ações e estratégias desse associativismo autogestionado questionam as dimensões de gênero e poder vigentes na sociedade capitalista e patriarcal, a fim de criar estratégias de sobrevivência e bem-estar em todos os momentos da vida para as mulheres na fronteira Brasil-Uruguai.
Para as mulheres do grupo, a participação no Riveramento significou a abertura de um espaço de pertencimento e de troca de saberes, experiências e afetos. A prática dos trueques se revelou não apenas como ferramenta de empoderamento e reconfiguração de suas economias domésticas, mas como catalisadora de transformações mais amplas nas formas de organização econômica e política. O grupo operou como um espaço de formação política e de reconhecimento mútuo, permitindo a construção de relações mais horizontais, o fortalecimento de redes binacionais de solidariedade e a emergência de práticas econômicas contra-hegemônicas. A vivência na fronteira entre Brasil e Uruguai é marcada por sua aparente fluidez geográfica, mas também por fronteiras imaginárias e simbólicas — tornou possível a criação de um espaço transfronteiriço de trocas culturais, de reconhecimento de semelhanças nas experiências de precariedade, luta e resistência vividas por mulheres de diferentes nacionalidades, mas com histórias sociais entrelaçadas. Em contraste com experiências “clássicas” de economia solidária, o Riveramento se diferencia por colocar a perspectiva feminista interseccional no centro de sua atuação, deslocando o foco da produção para a reprodução ampliada da vida. A partir disso, propõe-se que a economia solidária amplie suas bases epistêmicas e práticas, aprendendo com as experiências feministas em sua dimensão relacional, comunitária, territorial e afetiva, especialmente aquelas construídas desde os territórios periféricos e de fronteira.
Referencias
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» Yin, R. (2001). Estudo de Caso: Planejamentos e Métodos (2a ed.). Bookman.
1 Una versión preliminar de este artículo se discutió en las 30º Jornadas de Jóvenes Investigadores de la Asociación de Universidades Grupo Montevideo que se realizaron en la Universidad Nacional de Asunción (Paraguay) en 2023.
2 Divisa entre dois lugares, tais como países ou estados, onde não existe rio, lago ou oceano separando, apenas uma delimitação simbólica.
3 A pandemia da COVID-19 foi causada por uma doença decorrente do coronavírus SARS-CoV-2, identificado pela primeira vez em dezembro de 2019, que se espalhou rapidamente por todo o mundo, em março de 2020. O primeiro caso no Brasil foi confirmado em 26 de fevereiro de 2020, e a partir daí, a doença se espalhou para todas as regiões do país. A forma como a pandemia afetou o Brasil foi impactante, com milhões de casos confirmados e um alto número de mortes.
4 Fevereiro de 2022 foi apontado como o pior mês de contágio pela Covid-19, com 3,3 milhões de casos conhecidos. Disponível em: <https://g1.globo.com/saude/coronavirus/noticia/2022/02/28/fevereiro-chega-ao-fim-como-pior-mes-de-contagio-por-covid-no-pais.ghtml> Acesso em: 8 ago. 2023.