Corporalidades em diálogo intergeracional: pedagogia da beleza e perspectivas das crianças sobre práticas depilatórias

Corporalities in intergenerational dialogue: pedagogy of beauty and children’s perspectives on hair removal practices

Corporalidades en diálogo intergeneracional: pedagogía de la belleza y perspectivas de las niñas sobre prácticas depilatorias

Vanessa Paula da Ponte

Pós doutoranda em antropologia pela Universidade de Brasília (UNB) e doutora em ciências sociais pela UNICAMP. Pesquisadora da rede Anthera, Brasil
https://orcid.org/0000-0001-5064-4443
Contacto: nessaponte@gmail.com

Resumo

O estudo analisa práticas depilatórias e significados atribuídos aos pelos corporais por crianças de 6 a 12 anos em salões de beleza do Distrito Federal, Brasil. Objetiva compreender como estas crianças constroem significados sobre seus pelos, como a depilação influencia suas autoimagens e quais estratégias utilizam para lidar com normas estéticas. A metodologia empregou pesquisa etnográfica em três salões de diferentes contextos socioeconômicos (Asa Norte, Asa Sul e Ceilândia), utilizando abordagens participativas, diálogos espontâneos e atividades lúdicas. Teoricamente, baseia-se na compreensão do corpo como artefato cultural, dialogando com os Estudos sociais das infâncias que reconhecem as crianças como sujeitos plurais e atravessados por desigualdades estruturais. Os resultados revelaram uma “pedagogia da beleza” que movimenta valores sobre os corpos infantis; dinâmicas contraditórias entre adultos e crianças; intersecções de marcadores sociais como raça, classe e gênero nas experiências corporais; bullying e vergonha como motivadores para depilação; e a agência das crianças como atores sociais que não apenas recebem passivamente, mas interpretam, ressignificam e produzem as práticas corporais em diálogo com as expectativas adultas, evidenciando formas de resistência e negociação dos padrões estéticos impostos.

Palavras-chave: infância, corporalidade, depilação, pedagogia da beleza, interseccionalidade.

Resumen

Se trata de un estudio cualitativo que analiza prácticas depilatorias y significados atribuidos al vello corporal por niños de 6 a 12 años en salones de belleza del Distrito Federal, Brasil. Busca comprender cómo estos niños construyen significados sobre su vello, cómo la depilación influye en sus autoimágenes y qué estrategias utilizan para lidiar con normas estéticas. La estrategia metodológica realizada ha sido la etnografía, en tres salones de diferentes contextos socioeconómicos (Asa Norte, Asa Sul y Ceilândia), donde se incluyeron técnicas de investigación de enfoques participativos, diálogos espontáneos y actividades lúdicas. El marco teórico utilizado se basa en la comprensión del cuerpo como artefacto cultural, dialogando con e studios sociales de las infancias que reconocen a niños y niñas como sujetos plurales atravesados por desigualdades estructurales. Los resultados revelaron una “pedagogía de la belleza” que moviliza valores sobre los cuerpos infantiles; dinámicas contradictorias entre adultos y niños; intersecciones de marcadores sociales como raza, clase y género en las experiencias corporales; bullying y vergüenza como motivadores para la depilación; y la agencia de los/as niños/as como actores sociales que no solo reciben pasivamente, sino que interpretan, resignifican y producen las prácticas corporales en diálogo con las expectativas adultas, evidenciando formas de resistencia y negociación de los patrones estéticos impuestos.

Palabras clave: infancia, corporalidad, depilación, pedagogía de la belleza, interseccionalidad.

Abstract

The study analyzes hair removal practices and meanings attributed to body hair by children aged 6 to 12 in beauty salons in the Federal District, Brazil. It aims to understand how these children construct meanings about their body hair, how hair removal influences their self-images, and what strategies they use to deal with aesthetic norms. The methodology employed ethnographic research in three salons from different socioeconomic contexts (Asa Norte, Asa Sul, and Ceilândia), using participatory approaches, spontaneous dialogues, and playful activities. Theoretically, it is based on understanding the body as a cultural artifact, dialoguing with Social Studies of Childhood that recognize children as plural subjects traversed by structural inequalities. The results revealed a “pedagogy of beauty” that dynamizes values about children’s bodies; contradictory dynamics between adults and children; intersections of social markers such as race, class, and gender in bodily experiences; bullying and shame as motivators for hair removal; and children’s agency as social actors who not only passively receive but interpret, resignify, and produce bodily practices in dialogue with adult expectations, evidencing forms of resistance and negotiation of imposed aesthetic standards.

Keywords: childhood, corporality, hair removal, pedagogy of beauty, intersectionality.

Introdução

Este artigo propõe uma reflexão sobre as relações entre infância, estética corporal e práticas de embelezamento relacionadas aos pelos, com foco específico na depilação das pernas. A análise recai sobre os significados atribuídos às práticas depilatórias por crianças entre 6 e 12 anos, em diferentes realidades sociais e econômicas do Distrito Federal. As discussões apresentadas são fruto de um trabalho etnográfico realizado em salões de beleza, que ofereceu uma descrição detalhada sobre como categorias de diferenciação – geração, classe, raça e gênero – são negociadas pelas crianças em suas experiências com a produção de suas imagens corporais, a vivência de serviços estéticos (cortes de cabelo, penteados, maquiagens, etc.) e, para este artigo analítico, o foco será no serviço da depilação, especificamente, as construções simbólicas em torno dos pelos corporais.

A pesquisa foi conduzida em salões de beleza localizados em diferentes regiões de Brasília, abrangendo estabelecimentos com infraestruturas distintas – desde aqueles projetados por arquitetos, equipados com tecnologia avançada e amplo estoque de produtos de beleza, até salões situados em regiões com dificuldades de infraestrutura básica. Esta diversidade permitiu analisar como os padrões estéticos e as práticas corporais são vivenciados por crianças de diferentes classes sociais. O estudo reflete sobre como as práticas estéticas, vivenciadas nos estabelecimentos pesquisados, ecoam nos modos como meninas e meninos se relacionam com seus próprios corpos e na produção de suas subjetividades. A investigação parte da premissa de que os serviços oferecidos nos salões de beleza não são meras práticas de consumo, mas constituem uma pedagogia da beleza que atua na educação dos corpos infantis, transmitindo valores, moralidades e técnicas corporais específicas (Ponte, 2023).

Nesta investigação, privilegiei abordagens participativas na produção do conhecimento. Acompanhamos crianças em diversos momentos da experiência nos salões – na antessala aguardando atendimento, durante os procedimentos estéticos e também após sua conclusão. Adotei como estratégia principal diálogos espontâneos, seguindo a orientação metodológica de Sousa (2017), que valoriza estas interações descontraídas como ferramentas valiosas na pesquisa com infâncias, por ocorrerem fluidamente em contextos de socialização, diversão ou aprendizagem compartilhada. Atividades lúdicas complementaram significativamente a observação participante, criando um ambiente descontraído que facilitou as conversas e estreitou vínculos de confiança. Os registros foram feitos concomitantemente às interações e posteriormente modificados em narrativas realizadas no diário de campo¹.

Neste sentido, o trabalho dialoga diretamente com perspectivas contemporâneas que buscam compreender as infâncias plurais e heterogêneas, reconhecendo como as desigualdades estruturais – sociais, culturais e de gênero – configuram experiências distintas na forma de se construir como criança (Sarmento, 2003; Cohn, 2005; Corsaro, 2011). Ao focar nas práticas depilatórias realizadas em crianças de diferentes contextos socioeconômicos, este estudo revela as complexas motivações, tensões e negociações entre crianças e adultos, particularmente nas relações intergeracionais que permeiam os ambientes dos salões de beleza e nas intersecções entre consumo, corporalidade e construção da beleza.

A pesquisa identificou dinâmicas contraditórias nestas interações: em determinados casos, adultos aconselham ou impõem práticas depilatórias contrariando a vontade das crianças; em outros, proíbem a depilação mesmo quando há manifestação de interesse infantil; existem também situações de aparente consenso; e casos em que, mesmo relutantes, crianças e responsáveis aderem à prática como estratégia preventiva contra situações de constrangimento social, quando as crianças são interpeladas em ambientes coletivos. As crianças aqui não são vistas como objetos passivos de práticas estéticas impostas, mas emergem como sujeitos que interpretam, negociam e por vezes resistem às normas corporais, demonstrando sua competência como atores sociais situados.

O texto adota uma abordagem analítica de “close”1(Ponte, 2023) explorando detalhadamente as práticas relacionadas aos pelos das pernas, sem perder de vista a conexão com outras partes do corpo e com a totalidade da experiência corporal infantil. Esta estratégia textual reflete a própria dinâmica dos salões, que fragmentam o corpo em partes específicas para a oferta de seus serviços, mas permite, simultaneamente, uma compreensão integrada da corporalidade infantil.

Alinho-me à perspectiva teórica que compreende o corpo como um artefato cultural, marcado por significações sociais e por processos educativos que incidem sobre ele. Inspiro-me em autores como Marcel Mauss, para quem as técnicas corporais são aprendizados sociais transmitidos através de processos educativos, e David Le Breton, que propõe pensar o corpo para além de sua dimensão fisiológica, como território de construção de sentidos e subjetividades.

É importante frisar a dimensão histórica das práticas estéticas, entendendo-as como construções sociais e temporais. A história das práticas corporais associadas às pernas revela uma fascinante transformação social e estética através dos tempos. Vigarello (2006) demonstra como, na Europa do século XVI, as pernas eram consideradas meros “pedestais”, subordinadas à primazia estética do rosto e das mãos, para posteriormente ganharem crescente atenção estética a partir do século XIX e, definitivamente, no século XX, com aparelhos e modeladores específicos.

No Brasil, conforme analisa Maciel (2009), as pernas expostas nas minissaias dos anos 1960 representavam rebeldia e contestação, chegando a provocar reações de repressão social. Paralelamente, Del Priore (2011) evidencia como a popularização das saias impulsionou técnicas de “embelezamento das pernas” – incluindo a depilação, que se transformou em símbolo de recato e higiene – mas também destaca movimentos contrários, como o hippie, que valorizava o “corpo natural com pelos”. Este paradoxo contemporâneo é sintetizado por Santana (2014), para quem a liberdade de cuidar do corpo com cosméticos e exercícios vem acompanhada de uma exigência intensificada de constante vigilância e trabalho corporal, especialmente nas pernas, que demandam atenção tanto em sua forma quanto na textura e na “lida com os pelos”.

O presente texto fundamenta-se em cenas etnográficas provenientes de três salões de beleza localizados em contextos socioeconômicos distintos do Distrito Federal: um na Asa Norte, outro na Asa Sul (áreas do Plano Piloto) e um terceiro em Ceilândia (região administrativa).2 A investigação centra-se nas práticas depilatórias direcionadas às pernas infantis, particularmente das meninas, examinando minuciosamente os processos pelos quais essas técnicas corporais são transmitidas, incorporadas, executadas e ressignificadas nos ambientes dos salões. A análise busca responder a questões fundamentais: De que maneira crianças e adultos atribuem significados aos pelos corporais? Como as experiências de depilação influenciam e moldam a construção da autoimagem corporal infantil? Quais complexidades emocionais e afetivas emergem durante esses procedimentos estéticos? E, finalmente, quais estratégias as crianças mobilizam para reiterar, negociar ou resistir às normas estéticas impostas sobre seus corpos em desenvolvimento?

A análise proposta neste estudo revela a interseccionalidade presente nas experiências corporais infantis, evidenciando como as desigualdades etárias se entrelaçam com questões de classe social, gênero e outros marcadores sociais da diferença. (Szulc, 2001). Ao examinar as práticas e significados que as crianças atribuem à depilação, é possível observar como elas se constituem enquanto atores políticos no microcosmo dos salões de beleza, negociando sua autonomia corporal em diálogo com as expectativas adultas.

O artigo está estruturado em dois tópicos principais que dialogam entre si e desenvolvem a problemática central. Na primeira, intitulada “Pelo Não... Pelo Sim: Tensões e Negociações sobre a Depilação Infantil”, introduzimos o tema, contextualizamos a pesquisa etnográfica realizada em salões de beleza do Distrito Federal, apresentamos cenas etnográficas reveladas e analisamos os complexos discursos e práticas relacionadas à depilação infantil, explorando técnicas, motivações subjacentes e dinâmicas intergeracionais. Na segunda seção, “Gerações, Resistências e Negociações: Entre a Reiteração e a Ruptura dos Padrões Estéticos”, aprofundamos a discussão sobre as formas de resistência emergentes, os processos de estigmatização corporal e as sutis negociações envolvendo os padrões de beleza relacionados aos pelos corporais. O trabalho culmina com considerações finais que sintetizam as reflexões sobre a pedagogia da beleza e seu papel fundamental na construção das subjetividades infantis contemporâneas.

Pelo não... Pelo sim: tensões e negociações sobre a depilação infantil

Quando as meninas completam 10, 11 anos de idade, os pelos nas pernas, geralmente, começam a crescer, tornando-se mais abundantes. Nesse momento da vida, conforme as palavras da gerente do salão na Ceilândia, os pelos passam a “virar o assunto”, ou seja, transformam-se em alvo de atenção de muitas crianças, mães e funcionárias dos salões.

Contudo, mesmo antes de aparecerem, já são tema de conversas entre meninas e mulheres, seja porque as crianças escutam comentários e visualizam as técnicas corporais executadas pelas mulheres de sua rede de relações para cuidar das pernas e “lidar com os pelos”, seja porque há diálogos que gravitam em torno de como serão suas próprias lidas: se estão na idade correta ou não para se depilar, se os pelos serão ou não abundantes, se na depilação terão alergia a cera ou lâmina, se serão ou não sensíveis à “dor da puxada”. Nessas conversas, as técnicas de depilação, descritas a seguir, não são, na maioria das vezes, apresentadas como uma escolha, mas como uma prática que necessariamente fará parte dos cotidianos das meninas em algum momento de suas vidas. Em muitos desses diálogos, os pelos são considerados extremamente indesejáveis. Livrar-se deles passa a ser um aprendizado que muitas meninas precisam absorver e um objetivo a se alcançar. Destaco que não são apenas os pelos das pernas, mas de axilas, virilha, rosto, buço etc.

Nesse sentido, são recorrentes as falas de alguns familiares ou de integrantes dos salões que recomendam um modo de “lidar” desde cedo com o que se considera o excesso, deixando claro que “uma perna peluda” não é “nada feminino”, “sinaliza desleixo”, “não é bonita”, “é um horror”, “anti-higiênico”. Nessa toada, constrói-se, nas diferentes veredas desta pesquisa, uma dinâmica de convencimento em torno da ideia de que, na trajetória das meninas, é preciso dispensar tempo, energia e dinheiro para eliminar os pelos e movimentar outras técnicas que visem ao embelezamento das pernas, como deixá-las hidratadas e “lisinhas”, livres de manchas.

Embora a referida ideia seja bastante recorrente nos contextos pesquisados, não é uma visão unânime entre familiares e integrantes de salões. Há mães que, embora realizem a depilação em seus cotidianos, não concordam com a retirada dos pelos das pernas de suas filhas pequenas. Muitas delas, apesar de firmarem essa posição, expressam sentir desconforto e tristeza diante dos comentários constrangedores direcionados às pernas de suas filhas, ocorridos em pleno ambiente escolar ou em círculos familiares.

Sandra, pedagoga, mãe de uma menina de 2 anos, frequentadora de um Salão da Asa Norte, exibe os pelos das pernas orgulhosamente e deseja que sua filha, quando crescer, firme a mesma posição, contudo teme que a menina enfrente as mesmas pressões que cotidianamente vivência por sua escolha de não se depilar.

Vanessa, sinceramente, acho insano, uma tortura, uma agressão sem tamanho. O pelo, cara, não é sujo, é uma coisa nossa e que nunca vai parar de ser. É uma dor imposta às mulheres, ou pior, cara, às crianças... Minha sobrinha tem 12 anos, ela depila desde os 10 anos. Acredita?! Cara, já tive brigas homéricas com minha cunhada por causa disso. A gente nem se fala mais. Pra Gilva eu mostro o movimento do desprincesamento.3 (...) É interessante. Mostra umas princesas menos moscas mortas, mais ativas, inteligentes, apresenta outros modelos pras crianças. Na verdade, eu quero ver esse movimento crescendo, mostrando princesas gordas, peludas, com buço, com um black, mas já tem uma mudança aí que vai aos poucos. Tenho até pesadelo da Gilva me pedindo pra depilar. A nossa família é peluda, tem herança portuguesa, é difícil suportar a pressão. Tem gente que tem nojo, asco, cara. Nojo de pelo! Perguntam pra mim como o meu marido aguenta! O Armando já sofreu com fofoca no trabalho por causa disso. Já pensou os seus pelos virarem assunto do trabalho do seu marido? Pelo amor de Deus! É escroto, cara. Por ele eu tirava, mas respeita, tem que respeitar. Imagino a Gilva passando por isso, não gosto nem de pensar.

Vale mencionar que debates acalorados sobre a depilação infantil proliferam nas redes sociais e fóruns online, gerando intensas polarizações. Nas plataformas digitais como Instagram, TikTok e grupos de Facebook voltados à maternidade, formam-se verdadeiras trincheiras ideológicas: de um lado, familiares e especialistas posicionam-se veementemente contra, denunciando esta prática como símbolo preocupante de adultização precoce e submissão das crianças a padrões estéticos opressivos; de outro, defensores argumentam com igual convicção que se trata de uma questão pragmática de higiene e, principalmente, uma forma necessária de proteger as meninas do bullying escolar e da exclusão social (Candido, 2020). Estas discussões frequentemente extrapolam o âmbito familiar, tornando-se debates públicos sobre autonomia corporal infantil, com hashtags específicas e conteúdos virais que ora celebram, ora condenam essas práticas estéticas.

Nos contextos pesquisados, o bullying, categoria utilizada pelas próprias crianças, é uma razão atribuída para a retirada dos pelos. São prevalentes os incômodos manifestados por meninas em relação a comentários pejorativos e constrangedores acerca das “pernas cabeludas”. Os comentários são tão pejorativos que algumas dessas garotas evitam andar com as pernas expostas, mesmo em dias quentes, temendo esse tipo de reação. O sentimento de vergonha dos pelos é recorrentemente citado nas narrativas, e isso ocorre com meninas de diferentes classes sociais. Friso que, durante o campo, não percebi os pelos das pernas dos meninos sendo alvo desses comentários. Contudo tanto meninas quanto meninos foram apontados como autores das ofensas.

Nas trilhas percorridas em Brasília, percebi que alguns salões se recusam a fazer depilação em crianças. Muitos outros, no entanto, apesar de recomendarem a depilação a partir dos 12 anos, realizam o serviço em meninas mais jovens, mediante a permissão dos responsáveis. Os incentivos dados às crianças para a realização do serviço também gravitam em torno da “questão de beleza”, “higiene”, “feminilidade”, “praticidade” e “para adquirir o hábito”.

No Brasil há um forte mercado relacionado à depilação. Salões de norte a sul do país oferecem esse serviço e há clínicas exclusivas que lançam mão de técnicas como a fotodepilação e a depilação a laser, que ganharam adeptos a partir de 19904. Menciono também as linhas de cosméticos e aparatos que envolvem essa prática corporal, encontrados em supermercados, farmácias, lojas de cosméticos e afins. Vale mencionar que alguns métodos de depilação promovidos em território nacional ganharam notoriedade em outras paragens. Destaca-se o salão J Sisters, aberto em Manhattan por sete irmãs de Vitória (Espirito Santo), que “apresentaram às nova-iorquinas” a depilação com cera em um estilo que ficou conhecido como Brazilian bikini wax, como mostra reportagem da BBC (Venema, 2017).

Na pesquisa, um salão da Asa Sul e outro na Ceilândia executam frequentemente esse serviço em crianças. Nos demais salões, as técnicas de depilação, bem como as demais técnicas de embelezamento das pernas emergiram nas conversas que vivenciei ao longo do trabalho de campo. Nelas obtive a informação de que algumas mães levam suas filhas aos salões que costumam frequentar para que as meninas possam também ser depiladas pelas mesmas profissionais. Ocorre ainda dessas profissionais atenderem em domicílio.

Renata, advogada, mãe de Carmem, 3 anos, frequentadora de um salão na Asa Norte, contou-me que sua depiladora atende também sua mãe e a filha mais velha: “A Maria chega lá em casa e depila todo mundo! Quando ela vai é dia de festa e martírio. A Carmem fica só ali de olho. A Maria pega o papel [da depilação] e faz de conta que tira os pelos dela também. Ela fica: ‘ai, ai, ai!’. A gente morre de rir!”.

Além da depilação, uma das técnicas “na lida com os pelos” citada nas conversas nos salões, mas mais praticada em casa, é a “descoloração dos fios”. Para isso, geralmente utiliza-se água oxigenada volume 10, que clareia os pelos das pernas. A intenção é tornar os pelos “menos visíveis”. As mães e meninas que lançam mão dessa técnica anunciam que a vantagem é que os pelos ficam mais “claros” e, portanto, em suas concepções, “mais discretos” e “bonitos”. Vale mencionar que algumas mães preferem outras formas de lidar com os pelos por temerem reações alérgicas provenientes da utilização da água oxigenada na pele sensível da criança. Outras a utilizam habitualmente, mas queixam-se dos “pinicões na pele” oriundos do contato com produto.

É importante frisar que a “invisibilidade” e a “discrição” mencionadas acima ocorrem nas peles claras, uma vez que os fios descoloridos, nas peles escuras, se tornam ainda mais visíveis. Diana, 12 anos, que tem a pele negra, frequentadora do Salão na Ceilândia, conta que costumava descolorir os fios, pois “sempre odiou” a dor de depilar, mas decidiu aderir a essa prática e explicou o motivo:

O marido da minha tia fazia bullying comigo, ficava me chamando de macaca loira na frente de todo mundo. Resolvi tirar logo pra ele parar de me perturbar, mas é chato. Perna serve pra gente ir tomar sorvete, encontrar minhas amigas, passear e não pra fica ficar passando vergonha. Com pelo ela serve do mesmo jeito. [...] Uma vez por mês minha mãe me traz [na Deyse], e ela manda escolher se eu quero prancha, fazer a unha ou depilar. Sempre escolho [depilação], porque em casa, quando minha mãe tira, dói mais.

Outra técnica bastante realizada no espaço doméstico, mas também pautada nas conversas nos salões, consiste na depilação com lâmina de barbear. Os pelos, nesse caso, não são arrancados na raiz. O corte da lâmina é superficial, eliminando apenas os fios rentes à pele. Por essa razão, os pelos voltam rapidamente a crescer. Algumas mães e funcionárias argumentam que a depilação constante com a lâmina pode acarretar o surgimento de fios grossos e encravados. É, nesse contexto, que a depilação com cera é sugerida e estimulada por ambas. Como relatou Mirela, 11 anos, estudante de escola pública, frequentadora do Salão da Deyse:

Minha mãe vivia dizendo que era pra depilar com cera, mas eu morria de medo. Dói muito! Dizia que era manha minha, frescura. Que não doía tanto assim. Eu sabia que doía porque minha amiga me contava, aí eu tirava com a gilete mesmo. Era chato porque toda semana eu tinha que tirar de novo, de novo e de novo. Eu ficava com alergia, tipo umas bolinhas que apareciam, era dolorido. Ela [a mãe] dizia que meus pelos iam ficar grossos, e cada vez mais horríveis. Aí, foi o jeito, sofrer e partir pra cera.

Perguntei, então: “Mi, quando você fala, parece que você não gosta de depilar, certo?”. “Eu odeio! Mas eu gosto da perna lisa. Eu não vou virar uma ursa, né?”

A técnica de depilação com cera oferecida no Salão da Deyse e no Astros e Estrelas é um método que puxa os pelos pela raiz. Por serem arrancados inteiramente, demoram mais a crescer, de vinte a trinta dias. Há ceras caseiras, como as produzidas no Salão da Deyse, feitas com açúcar e limão levados ao fogo até a mistura ficar com aparência de caramelo. Há também ceras industrializadas, à base de breu, autorizadas por organismos como a Anvisa, que se dizem mais eficazes por retirar todos os pelos em uma só puxada. No Astros e Estrelas, são essas as ceras utilizadas. Seja qual for o produto, uma narrativa bastante recorrente entre meninas e mulheres é a dor ocasionada por esse puxão. Sobre as técnicas de depilação que envolvem laser, não houve registro de crianças em meu campo, mas nas paragens do Plano Piloto algumas mães relataram essa prática.

Como ocorre em outras atividades, nem sempre há consenso entre as crianças e seus pais e responsáveis no que diz respeito à realização de tal procedimento. Por vezes, as crianças querem realizar o serviço, mas seus pais não permitem; em outros momentos, ocorre o contrário, os pais incentivam as crianças, mas estas se recusam. São negociações complexas e diferenciadas. A seguir, apresento duas cenas a esse respeito.

a) Cena 1 – “Você acha lógico?” (Salão da Ceilandia)

Taila, 11 anos, cabelos e olhos castanho-escuros, chega ao Salão da Deyse com vestido e meias coloridas que cobrem toda a extensão das pernas. Tem uma expressão claramente irritada. A mãe informa à cabeleireira que, depois de cortar os cabelos, a menina fará a primeira depilação. Taila retruca: “Mãe, eu já disse que não vou fazer!”. A mãe responde em tom elevado: “Que coisa feia, uma moça peluda. Quem já viu? Não existe isso, Taila!”. A menina responde: “Dói, mãe!”. A mãe insiste: “Ela tem que depilar, pois os pelos são grossos como os meus. Se não tirar cedo vão ficar encravados”. A mãe argumenta ainda que Deyse será delicada e não doerá. “Taila, eu sou boazinha. Você vai ficar com a perna linda!”, diz Deyse. “Eu não quero!”, enfatiza Taila. Deyse indaga: “Por quê?” “Porque a perna é minha!”.

Nesse dia, Taila conseguiu “vencer”, não precisou fazer a depilação. Conversei com ela em outras ocasiões. Em um de nossos longos papos, disse-me: “Você acha certo uma pessoa ter sempre que sentir dor só porque os outros não gostam de uma coisa em você? O importante pra mim é que a Amanda gosta de mim, a Liana gosta, a Giovana gosta [amigas da escola]. Isso que importa”. “No que eu te conheci, tava muito calor e você tava com meias. Quando você usa meia tem a ver com os pelos?”, perguntei. “É! Porque não é todo dia que eu tô a fim de ouvir merda de quem não gosta de mim. Tem dias que tenho mais vergonha. Naquele dia eu já fui sabendo que ela [a mãe] queria que eu depilasse. Lembra? Já coloquei de propósito”. “Entendi. Qual sua motivação, o que mais leva você a não querer depilar?” “Eu não acho lógico, dói. Você acha lógico?” Antes que eu falasse qualquer coisa: “Acha, né! Não tem pelo na perna”. O tom de Taila e sua resistência me fizeram pensar sobre minhas práticas.

b) Cena 2 – “Dia de faxina” (Salão da Asa Sul )

Fabiane, 11 anos, estudante de escola particular, é deixada pela mãe na porta do salão para viver sua “tarde de beleza”. Assim que adentra o lugar, com seus longos cabelos e vestido azul, Gilda diz: “Essa a gente conhece desde a fralda”. Depois, olha para a menina e pergunta: “E hoje, Fabi?”. Com entusiasmo, a menina fala: “Dia de faxina, tia! Unha, escova e depilação”. Como de praxe, quando as clientes fazem essas atividades no mesmo dia, iniciam pela depilação para “não amassar o cabelo nem borrar as unhas”. E foi assim que ocorreu.

Perguntei se poderia acompanhá-la. Ela nem parou para responder, deu seu consentimento5, enquanto se encaminhava para a sala da depilação, sua velha conhecida. Miro um ambiente com ar-condicionado, cor-de-rosa, decorado nos mínimos detalhes. Fabiane deixa sua bolsa num pufe, pega o celular e se deita na maca. Tatiane passa um algodão molhado delicadamente em toda a perna, depois uma toalha, enxugando com suavidade a menina. Em seguida, a depiladora aquece a embalagem contendo o creme depilatório num micro-ondas. Ao retirar, passados poucos segundos, coloca um pouco do conteúdo no seu próprio pulso para averiguar se a cera está na temperatura adequada para aplicar em Fabiane. Tece um comentário sobre o produto: “Essa é uma cera especial pra peles delicadas como a dela”. “É uma cera própria pra crianças?” “Para todos os tipos de peles delicadas.” Em seguida, inicia a depilação. Com uma espátula rosa de plástico, passa a cera na perna da menina. O denso líquido marrom gruda na pele e, ao esfriar, a textura fica ainda mais espessa. Tatiane, com o polegar e o indicador, levanta uma pontinha da cera grudada na pele e, em seguida, faz um movimento rápido, puxando de baixo para cima, com bastante firmeza. “Ai! Essa doeu! Pega leve, Tati!”, diz Fabiane com a face ruborizada. A depiladora diz: “Foi demorar a vir, perdeu o costume”. Ao que a menina retrucou: “Afff! Tô andando de calça direto porque tava sem tempo!”.

Enquanto conversam, Tatiane continua a depilação, faz o mesmo movimento de “puxada” sucessivas vezes. Os pelos vão saindo, a pele avermelhando. Fabiane solta sonoros ais. Ao finalizar as puxadas, Tatiane passa um creme hidratante. Fabi sai depilada para realizar as outras atividades. Aí conversamos. Ela se depila desde os 9 anos de idade. “Eu queria antes, mas só com 9 minha mãe liberou”. “Você pode me contar como foi?” “Lembro que doeu, mas não fiz escândalo pra minha mãe não desistir de deixar. Ela ficou admirada.” Perguntei por que desejava tanto se depilar, e ela prontamente respondeu: “Eu fui a primeira a ter pelo na minha sala, tinha vergonha no dia da educação física, que a gente usava short, e acho que não tem nem comparação, fica muito mais bonito assim.” “Quando você chegou, você disse que ia fazer uma faxina?” “Ahhh! Tava brincando. Tipo, eu cheguei assanhada, peluda, com esmalte descascando. Vou sair outra pessoa!” A tarde seguiu e, depois de algumas horas, ela liga para sua mãe, que, em pouco tempo, aparece para pegar a “bela da tarde”!

Gerações, resistências e negociações: entre a reiteração e a ruptura dos padrões estéticos

Perna peluda é “feio”, “anti-higiênico”, “pouco feminino”, esses são vereditos estéticos dinamizados intensamente nos contextos estudados. Em torno do aprendizado de que os pelos são indesejáveis, feios, sujos, vão sendo normalizadas práticas corporais para eliminá-los, muitas vezes apresentadas não como uma possibilidade, mas como destino. Algo que emerge na fala da mãe de Taila: “Que coisa feia, uma moça peluda. Não existe isso!”. Nessa lógica, para produzir um corpo “possível de existir”, é impositivo uma constante disciplina e administração de si, já que os pelos não param de crescer no correr das estações.

No bojo da pluralidade dos movimentos e estudos feministas e de seu manancial de discussões das relações entre corpo, sexualidade e do gênero, as técnicas corporais para apresentação das aparências físicas, incluindo aqui as discussões acerca da remoção ou manutenção dos pelos, já protagonizaram acalorados debates gestados desde a década de 60 até hoje e não param de se renovar. Debates que não foram e nem são uníssonos.

Entre as diversas perspectivas, a prática da depilação ora foi analisada na chave da opressão, a subordinação das mulheres a padrões, ora na chave dos direitos individuais cabendo a cada sujeito ter autonomia para decidir o que deseja fazer com seus pelos e quais sentidos atribuir a essa prática (Saffioti, 2013; Muraro, 2004). Há também leituras dessa prática num prisma decolonial, podendo ser vista como cuidado corporal e instrumento de sociabilidade (Lidola, 2022). O exercício aqui é partir dos sentidos atribuídos pelos sujeitos e as formas particulares de entendimento sobre essa técnica corporal, procurando compreender o atravessamento de um conjunto de moralidades, discursos que atravessa, seus corpos. A produção do embelezamento passa por várias tecnologias e técnicas de sujeição que, por sua vez, também suportam ações de emancipação.

A materialidade etnográfica mostra que a depilação é uma prática de beleza que pode atravessar gerações. Lembremos Francine nos contando da depiladora que a atende e também atende a sua mãe, sua filha mais velha e anuncia que é só uma questão de tempo para atender a mais nova. Algo dito com convicção, antes mesmo dos pelos dessa última crescerem. Assim, um mapeamento simbólico do corpo vai sendo desenhado de forma dinâmica, geração após geração. Tal atravessamento, é importante que se diga, jamais se revela estático, está sempre passível de múltiplos sentidos e ressignificações, devendo ser olhado à luz de cada trajetória.

Percebi, nas diferentes veredas, que afetos e trocas muito íntimas entre meninas e mulheres podem constituir a vivência dessa prática corporal: partilhar os cuidados da depiladora de confiança; ensinar a fazer a ce ra em casa; ir juntas ao salão para se depilar; compreender os macetes de cada tipo de depilação, tais como “usar a lâmina de baixo pra cima para não encravar o pelo”, “prender a respiração na hora da puxada pra diminuir a dor”; escrutinar o corpo da outra pra dizer que já é hora de se livrar dos pelos... Enfim, entre gritinhos, caretas e vermelhidões, uma partilha de como produzir o corpo, conhecer-se e se reconhecer como parte de uma rede vai sendo tecida: “É festa e martírio!”, diz Renata, mãe de Carmem, 3 anos, quando a depiladora chega a sua casa para eliminar os pelos de três gerações. Divertem-se especialmente com os ais de Carmem quando Maria faz de conta que depila a perna da criança. Com esses ais, a pequena vai se reconhecendo como igual, integrante daquele momento tão delas, das mulheres de sua referência.

Pensemos também como Fabiane suportou a dor da primeira depilação para dizer à mãe que realmente estava pronta para viver aquela prática corporal. Acompanhando essas trocas, destaco que analisar a prática corporal em questão pede um olhar que ultrapasse a saída reducionista de que tal prática é um ícone puro e simples da objetificação dos corpos, ao mesmo passo que pede toda uma atenção para como incidem prescrições de gênero que, por vezes, geram sentimento de culpa, vergonha e inadequação em meninas e mulheres, além de uma lida permanente com a dor, que, embora possa ser relativizada em sua vivência, é uma constante nos relatos. Chamo a atenção também para o fato de que, ao passo que as pernas peludas de homens e meninos estão livres de julgamento, alguns deles aparecem nas narrativas como os que sentem nojo, que xingam os pelos nas pernas das meninas.

Os sentimentos de inadequação, culpa, vergonha não são alimentados apenas nos interiores dos salões, clínicas e nas trocas familiares. Há uma poderosa indústria cosmética que reforça a ideia de que as pernas e cada mínima parte do corpo devem ser alvo constante de cuidado e embelezamento, como se pode notar nestes anúncios reunidos pela autora:

O incentivo a se engajar nos cuidados de cada parte do corpo é tão intensivo que nos faz pensar o quanto de constrangimento social pode estar imbricado no consentimento, na escolha de dadas práticas corporais como a depilação. Nesse horizonte, uma reflexão sobre “vergonha” se faz imperativa, pois esse sentimento emergiu com força em muitas narrativas. Elias (1995) nos convida a pensar a vergonha como uma categoria que tanto se refere ao autocontrole individual quanto desvela limites impostos pela rede de interdependência na qual o indivíduo se insere.

O autor movimenta essa discussão ao descortinar o processo civilizador no Ocidente, engajando-se numa apurada análise de manuais de etiqueta desde o século XIII até o século XIX. Por intermédio das páginas desses manuais, que traziam instruções de como os indivíduos deveriam se comportar, Elias (1995) pensa o processo de disciplinamento dos corpos, que são trabalhados detalhadamente e sem folga. Essa disciplina se expressa nas maneiras de se portar à mesa, de manejar os talheres, de lidar com as funções corporais, a comida, a sujeira, a sexualidade – formas de agir em relação aos outros. A referida obra mostra como as mudanças de condutas e de constituição psíquica dos corpos têm inteira ligação com as alterações que se verificam na estrutura social.

Seguindo essa lógica, é possível aferir que a vergonha manifestada nas narrativas das meninas pode desvelar um direcionamento moral que dialoga com os parâmetros impostos por sua rede de interdependência. Nesse bojo, convenções vigentes de gênero e de sexualidade são acionadas. Nas redes de minhas interlocutoras, há inclusive uma associação entre pernas peludas e certa animalidade, como se a depilação fosse sinônimo do humano. Pensemos no que diz Mirela, que, apesar de odiar a depilação, aderiu à prática: “Eu não vou virar uma ursa, né?”. Há também toda a narrativa do nojo em relação aos pelos. Sentir nojo implica afastar-se, ter repulsa, o que, de certa forma, causa um distanciamento social, uma negação do outro.

Novamente pensemos como esses direcionamentos morais se dão de forma particular, a depender dos marcadores sociais da diferença. Nos contextos pesquisados, assim como os cabelos loiros são intensamente valorizados, os pelos das pernas, quanto mais clarinhos, mais bonitos, ou seja, mais se aproximam do padrão almejado. Ou a pele é completamente livre de pelos, ou os pelos devem ser necessariamente finos e loiros, característicos de mulheres brancas.

Para conseguir os pelos loiros almejados, como já dissemos, há técnicas de descoloração dos fios das pernas com água oxigenada. Contudo, nas peles negras, os pelos não ficam discretos, mas ainda mais aparentes. Lembremos de Diana, que não gostava dos pelos e descoloria. Aderiu à depilação devido à atitude do marido de sua tia que, nas palavras da menina, “ficava me chamando de macaca loira na frente de todo mundo”. A associação de uma menina negra a um macaco aciona um xingamento recorrentemente utilizado para negar a humanidade dos sujeitos negros, numa expressão forte de racismo.

A expressão utilizada por Diana para classificar o comportamento do tio foi “bullying”. Geralmente esse termo é utilizado para apontar situações de agressões verbais, físicas e emocionais, feitas de modo corriqueiro. A esse respeito, relembremos algumas falas já apresentadas ao longo do trabalho: “Recebo vítimas de bullying todos os dias na minha cadeira” (Lúcia), “Não aguento mais esse cabelo, esse bullying!” (Tiago), “Na escola era bullying todo dia, era cabelo de bucha pra cá e cabelo de bucha pra lá” (Francisca). “Na primeira oportunidade, eu vou tirar ela dessa escola. (...) Ali não tem um trabalho sério de conscientização sobre bullying” (Maíra, mãe de Tânia). “Tenho que passar por essa tortura toda vez, porque na escola fazem bullying comigo. Me chamam de monocelha” (Ivina).

Em alguns diálogos com crianças de diferentes classes, ao relatarem passagens de suas vidas em que seus corpos foram alvo de ofensas, ao serem perguntadas como conheceram a expressão “bullying”, a maioria relatou que foi na escola. Além das narrativas supracitadas, ouvi muitas outras que evidenciaram a rota intensa da ofensa direcionada às aparências físicas que passa ao largo dos padrões de beleza: a menina obesa, o garoto deficiente, o menino de baixa estatura, a menina de sardas, a/o menina/o de cabelo crespo e pele negra. Também fica na mira das ofensas quem não apresenta um comportamento alinhado à matriz binária de gênero. Há algo em comum entre esses corpos tão diversos que são colocados à margem: a dor do isolamento, do xingamento, as lembranças que evidenciam a dor e o engajamento para pertencer. É bastante prevalente uma dedicação a técnicas corporais como regimes, maquiagens, serviços capilares e os demais supracitados para que o resultado possa produzir um corpo cuja recompensa seja o pertencimento ou alguma afeição.

Bandeira (2009), Cantine, (2004), Lisboa (2005), Medeiros, (2012), Bazzo (2017) dedicaram-se ao estudo da categoria bullying. Conforme esses autores e autoras, essa expressão foi cunhada pelo sueco Dan Olweus após o Massacre de Columbine, em 1999, nos Estados Unidos. Tiranizar, ameaçar, amedrontar, oprimir são alguns dos sentidos atribuídos ao termo. No Brasil, esse termo se popularizou nos anos 2000, quando algumas questões relacionadas ao respeito à diversidade vieram à tona.

Apesar das particularidades de abordagem dos autores supracitados, eles desnaturalizam a ideia de um debate sobre bullying vinculado a atitudes meramente individuais, um debate que se atenha à compreensão desse fenômeno a partir de uma análise unicamente psicológica daqueles indivíduos que praticam o bullying e dos que o sofrem. Essa literatura mostra que se trata de fenômeno social, devendo, portanto, ser entendido no exame cuidadoso das relações dos envolvidos, sem jamais perder de vista a análise do contexto social e histórico no qual essas relações se tecem. Afinal, como aventa louro (2003, p. 6), “[o]s corpos são marcados, fortemente, a partir da exterioridade do olhar e do dizer do outro. Os corpos são nomeados e discriminados conforme se ajustem, ou não, aos ditames e às normas de sua cultura”.

Apoiada nessa literatura e, especialmente, com base na relação dialógica com as crianças com quem interagi, reflito, que, de um lado, a expressão “bullying” confere notoriedade às cenas de sofrimento vivenciadas pelas crianças, reúne diálogos, conversas, orientações sobre essas cenas. Por outro lado, atrás dessa categoria genérica, não raramente ficam escamoteadas várias formas de discriminação: o racismo, a homofobia, a gordofobia, a misoginia, o preconceito contra pessoas com deficiência. Com base nessa pesquisa, penso que o bullying desvela uma série de desigualdades arraigadas na estrutura do país. Por essa razão, já que essa é uma expressão densamente utilizada em diferentes contextos, é preciso examiná-la detalhadamente, sem generalizações e culpabilizações puras e simples das crianças. Aquiesço ao que diz Bazzo (2017, p. 225), calcada em Elias: “não basta identificar o atributo e condenar o estigma, mas sim questionar em que medida essa associação acusatória conduz à manutenção de um extenso quadro de privilégios – a um só tempo políticos, sociais, econômicos e culturais – de grupos ‘estabelecidos’ em oposição aos ‘outsiders’”

No Brasil, a Lei 13.185/2015 define o bullying como “todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo. É praticado sem motivação evidente por indivíduo ou grupo contra uma ou mais pessoas”. O artigo 2º dessa lei considera bullying quando há “intimidação; humilhação; discriminação; ataques físicos; insultos pessoais; comentários sistemáticos e apelidos pejorativos; ameaças por quaisquer meios; grafites depreciativos; expressões preconceituosas; isolamento social consciente e premeditado; pilhérias”.

Com base nessa pesquisa, penso que a expressão “sem motivação evidente”, descrita na lei, parece escamotear as desigualdades profundas, a discriminação de corporalidades que, muitas vezes, atravessam as vidas das crianças e acabam suscitando as ações de bullying, camuflando o teor político do tema. Nesse horizonte, produz-se um arsenal de estigmas que marcam corpos e subjetividades ou que os deixam diariamente em tensão.

De acordo com a análise de Goffman (1998) sobre o estigma, quando um indivíduo se apresenta numa interação social com algum atributo que o diferencia dos demais integrantes de sua coletividade e esse atributo não corresponde àquilo que sua coletividade acredita ser o ideal, ele deixa de ser considerado “uma pessoa comum e total, passa a ser considerado como pessoa estragada e diminuída” (Goffman, 1988, p. 12). Essa característica que o diferencia é considerada um estigma. O autor demonstra, em seu estudo, que o estigma tem um acentuado efeito de descrédito. Pode ser considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem. Ainda conforme Goffman (1998), os indivíduos estigmatizados são tachados com atributos intensamente depreciativos e sofrem diariamente com discriminações e preconceitos, como se a pessoa fosse portadora de uma anomalia que a impede de “ter a aceitação social plena” (Goffman, 1988, p. 7).

O autor também mostra que um indivíduo estigmatizado acredita, em alguns casos, que “lhe seria possível tentar corrigir diretamente o que considera a base objetiva de seu defeito” (Goffman, 1988, p. 15). No curso destas páginas, foi possível vislumbrar o grande esforço de muitas crianças para adequarem seus corpos ao “padrão” e o descontentamento de algumas delas porque, apesar do intenso esforço, não conseguiram o resultado esperado, sonhado, para seus corpos. A relação entre o sujeito que estigmatiza e o estigmatizado jamais é passiva, apesar de a relação de poder estabelecida fragilizar um dos lados.

Os padrões estreitos de beleza que reiteram a estética branca, magra, de cabelo liso e loiro, nutrida com vigor pelos salões, por outros espaços de embelezamento e por parte significativa da indústria estética, dos meios de comunicação de massa e dos fabricantes de brinquedos, acabam ressoando na produção de moralidades, posturas de comportamento e, por vezes, abrindo caminhos para o julgamento das margens, dos outros que não se enquadram nesse padrão, um manancial para o bullying.

Há marcas emocionais nesse processo, mas chamo a atenção também para os riscos físicos. Quanto aos serviços abordados nesta seção, considero pertinente mencionar o uso de ceras, cremes depilatórios, lâminas, água oxigenada e afins nas peles das crianças. Dermatologistas alertam para o risco de alergias6.

Mas, como dialogamos ao longo do close nas partes do corpo, a produção do embelezamento passa por várias tecnologias e técnicas de sujeição que, por sua vez, também suportam ações de emancipação. Sandra, cujas pernas peludas viraram alvo de fofoca no escritório do marido, apresenta à filha pequenininha o movimento do desprincesamento, que não pretende colocar em xeque muito menos cercear o apreço por príncipes e princesas, mas construir outras ideias sobre eles, inclusive numa crítica às concepções rígidas e estreitas de beleza física. Nessa direção, lembremos também da colocação de Diana questionando a postura do seu tio que a chamava de macaca por conta das pernas peludas. “Acho chato! Acho errado! A gente quer perna pra ir tomar sorvete, encontrar as amigas, passear e não pra fica ficar passando vergonha”.

Considerações finais

Ao concluir a jornada analítica proposta neste artigo sobre as práticas depilatórias e os sentidos atribuídos aos pelos corporais por crianças em salões de beleza em Brasília, retomamos as questões iniciais que nortearam este trabalho etnográfico: Quais significados são atribuídos aos pelos corporais pelas crianças? Como as experiências de depilação ressoam na construção de suas imagens corporais? Quais emoções são mobilizadas durante essas práticas? Como as crianças reiteram, negociam ou resistem às normas estéticas relacionadas aos pelos?

O “close” realizado nas práticas relacionadas aos pelos das pernas revelou subjetividades em construção que dialogam ativamente com os contextos sociais vivenciados pelas crianças. A pedagogia da beleza identificada nos salões de Brasília constitui um vocabulário de sentimentos, práticas e gestos, diariamente mobilizado para uma educação corporal com profundo teor moral e sentimental. Esta pedagogia opera como um guia de atuação que orienta não apenas as crianças, mas também os funcionários dos salões e os familiares sobre as formas de olhar e tratar os corpos.

Longe de ser uma prática homogênea, a relação das crianças com seus pelos corporais é tecida por uma complexa rede de discursos e tecnologias provenientes da indústria de beleza, medicina estética, indústria farmacêutica, mídia e publicidade. Estes elementos convergem para enfatizar, do acordar ao dormir, a ideia de que a beleza física é um triunfo que se traduz em poder e possibilidade de aceitação social. No centro dessa pedagogia, ter uma aparência física considerada bela é apresentado como uma conquista e um trabalho minucioso que exige dedicação constante a cada parte do corpo.

As crianças, como demonstramos ao longo do texto, não são meras receptoras passivas destas normas. Ao contrário, elas emergem como atores sociais competentes que ora reiteram (“Eu não vou virar uma ursa, né?”), ora negociam (“É um dia de faxina!”) e ora resistem (“Porque a perna é minha!”) às normas estéticas impostas. Nas relações intergeracionais que se desenvolvem nos espaços dos salões, as crianças demonstram sua capacidade de interpretar e ressignificar as práticas corporais, evidenciando sua agência mesmo em contextos marcados por intensas pressões estéticas.

A análise revelou como as diferenças sociais – geração, classe, raça e gênero – se entrelaçam nas experiências corporais infantis, produzindo formas distintas de viver a corporalidade. Os efeitos de um passado colonial, do racismo persistente, do classismo e da heteronormatividade reverberam nas práticas corporais, como exemplificado no caso de Diana, chamada de “macaca loira” ao tentar descolorir seus pelos. Simultaneamente, observamos movimentos de resistência, como demonstrado por Sandra ao apresentar à filha o movimento do “desprincesamento”.

Apesar das diferenças entre os salões pesquisados, em todos eles observou-se a busca por uma “beleza normatizada”, frequentemente apresentada como defesa contra o preconceito e o bullying. Para muitas crianças, pais e profissionais, os salões funcionam como uma espécie de armadura contra as violências que ocorrem principalmente nos ambientes escolares. Contudo, a pesquisa também evidenciou que esses mesmos espaços podem ser palco para experimentações e para a desconstrução de padrões normativos, frequentemente agenciada pelas próprias crianças, que neles encontram possibilidades de autoexpressão.

Ao privilegiar as vozes e perspectivas infantis, este estudo contribui significativamente para o campo dos estudos da infância na América Latina, reconhecendo como as desigualdades estruturais configuram experiências distintas do ser criança. A interseccionalidade presente nas práticas estéticas infantis revela um fenômeno complexo: as crianças negociam sua autonomia corporal em diálogo constante com as expectativas adultas, constituindo-se como atores políticos mesmo nos microespaços cotidianos. Esta negociação constante demonstra o protagonismo infantil em contextos socialmente determinados.

Concluímos, portanto, que os salões de beleza, as práticas estéticas e as relações que os permitem manifestam uma dualidade significativa: tanto podem constituir padrões alimentares de beleza restritivos e adoecedores, quanto podem constituir espaços onde existências autônomas e diversas podem ser construídas. Esta possibilidade de transformação depende fundamentalmente da forma como coletiva e eticamente repensamos, não apenas no fórum privado, mas no debate público, a maneira como educamos e somos educados para pensar corpo, beleza, consumo e os processos de subjetivação.

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1 A abordagem de “close” diz respeito a uma atenção minuciosa conferida às técnicas corporais e aos detalhes dispensados a cada parte do corpo no exercício etnográfico. Esta categoria metodológica possibilita mirar os detalhes da produção da beleza realizada nos cabelos, no rosto, nas mãos, nas pernas, sem jamais perder de vista a interação entre essas partes. Fundamentalmente, considere uma análise interseccional que leva em conta as posicionalidades do sujeito, constituindo um modo particular de olhar os gestos e a produção das subjetividades. O close pode oferecer uma compreensão sobre a produção de corporeidades que vicejam no campo, revelando como diferentes marcadores sociais se entrelaçam nas experiências corporais infantis. Para mais detalhes sobre esta abordagem metodológica, ver Ponte (2023).

2 Os quatro salões analisados neste artigo localizam-se em áreas com perfis socioeconômicos distintos: Plano Piloto (Asas Norte e Sul – regiões centrais planejadas, alta renda, IDH elevada e concentração de servidores públicos) e Ceilândia (área mais populosa, 26km do centro, menor renda média). Destaca-se um salão na Asa Sul próximo à rodoviária, especializado em cabelos crespos e cacheados, que funciona como zona de transição socioespacial, atraindo clientela diversificada de várias Regiões Administrativas, predominantemente de classes populares.

3 Uma das matérias compartilhadas por Sandra sobre o desprincesamento, movimento que começou em São Paulo e ganha força nas redes sociais da internet. As organizadoras da “oficina de desprincesamento”, Larissa Gandolfo e Mariana Desimone, explicam: “Fizemos essa oficina numa tentativa de mudar um pouco os horizontes das meninas. Mostrar a elas que são inteligentes, especiais, incríveis. Fortes! Criativas. E que não precisam se encaixar em nenhum padrão” (Lunetas, 2016, n.p.).

4 A fotodepilação é uma depilação por meio de luz que visa destruir as células germinativas do pelo (a raiz). Já a depilação a laser promove a retirada dos pelos por meio de disparos de laser que queimam a raiz do folículo piloso.

5 Eu já havia encontrado mãe e filha no salão outras vezes e já havia explicado a pesquisa e pedido a mãe para conversar com a filha numa outra ocasião se coincidisse nossas vindas e se ela quisesse conversar comigo.

6 Reportagem que mostra a cautela para uso de água oxigenada e de lâminas em crianças (Crocetti, 2014).