Suicídio indígena na Amazônia: colonialidade, malestar social e resistência epistêmica

Autores

  • Alessandra dos Santos Pereira Doutora em Educação. Pesquisadora do Laboratório de Desenvolvimento Humano e Educação (LADHU) da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e do Laboratório de História, Políticas Públicas e Saúde na Amazônia (LAHPSA) do Instituto Leônidas e Maria Deane - Fiocruz Amazônia
  • Aucimara Souza do Nascimento Mestranda em educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas (PPGE/UFAM). Pedagoga da Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (SEDUC-AM); Psicóloga
  • Frank Lindoso da Silva Mestrando em educação – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Amazonas (PPGE/UFAM). Pesquisador no campo de políticas públicas atuando pela Fiocruz como técnico no Colaboratório POP Rua – Manaus/AM

DOI:

https://doi.org/10.67215/wirapuru.1554

Palavras-chave:

suicídio indígena, juventude indígena, colonialidade, Karl Marx, epistemologias indígenas

Resumo

O suicídio entre povos indígenas, especialmente entre jovens na Amazônia, apresenta taxas persistentemente superiores às da população não indígena e constitui um grave problema de saúde pública, social e político. Este artigo analisa criticamente o fenômeno, articulando a leitura marxiana do suicídio, como expressão do mal-estar social, com as epistemologias indígenas e autores interculturais. Metodologicamente, trata-se de estudo teórico-crítico que integra: (a) revisão de escopo da produção científica nacional em língua portuguesa sobre suicídio indígena, com busca em SciELO e BDTD; (b) sistematização crítico-documental de dados e diretrizes institucionais (Ministério da Saúde/SESAI, Fiocruz, CIMI, IBGE); e (c) análise interpretativa por hermenêutica intercultural, priorizando autores indígenas. Argumenta-se que o suicídio indígena não deve ser reduzido a evento individual ou exclusivamente clínico, mas compreendido como expressão histórica da colonialidade do capital, da expropriação territorial, do racismo institucional e da ruptura de formas comunitárias de vida. Conclui-se que seu enfrentamento exige políticas públicas interculturais de saúde e educação, com fortalecimento da atenção psicossocial indígena, valorização de línguas e saberes ancestrais e ruptura com a lógica eurocêntrica e medicalizante do cuidado.

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Publicado

2026-06-24

Edição

Seção

Artículos

Como Citar

Suicídio indígena na Amazônia: colonialidade, malestar social e resistência epistêmica. (2026). Wirapuru, 13. https://doi.org/10.67215/wirapuru.1554